Numa semana a Europa mudou

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±MAISMENOS± intervenção Jardins Efémeros, Viseu

Avanço para este texto algumas horas antes de abrirem as urnas na Grécia [escrito no Sábado] exaltando, no título, um dos preconceitos falsos que se impôs sem direito a correcção: União Europeia é Europa.
A Europa mudou com o referendo da Grécia. O Projecto Europeu deixou de ser diplomático, ponderado, respeitador de países e das suas instituições. Mostrou as suas garras e arreganhou os dentes.
Curiosamente as mais radicais expressões desta mudança vêm de quem se posiciona perante o seu eleitorado no centro-esquerda, integrando a chamada família socialista. Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, ameaçou que se o “não” vencer a Grécia ficará entregue a si própria e o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, defendeu que à vitória do “sim” se devia seguir um golpe de Estado que nomeasse um governo tecnocrata para a Grécia.
Ao contrário do habitual, a Europa não se encheu de promessas de linhas de financiamento para grandes projectos, desenvolvimento, combate ao desemprego. A Europa quis que o povo grego fosse votar com medo.
Mas esse medo não se construiu apenas de declarações de representantes europeus. Na maioria da comunicação social a campanha ideológica atingiu níveis somente atingidos em períodos de guerra, abdicando-se de informar. Fotografou-se filas de jornalistas estrangeiros a levantar dinheiro no multibanco para ilustrar levantamentos massivos de capital, divulgou-se a imagem de uma vítima do terramoto na Turquia como se fosse um grego depois do anúncio do referendo e não se denunciou, por exemplo, um documento secreto da ND (partido que foi afastado do poder nas últimas eleições) na qual se preparava a invenção de uma dinâmica de sondagens favoráveis ao “sim”.
No momento em que escrevo não sei o resultado do referendo que o leitor já conhece. Limito-me a constatar que durante a semana que passou a Europa mudou e não mudou para melhor.

Publicado ontem no i
(com links e editado)

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Viver de pé

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Imaginemo-nos a votar sobre o corte nas pensões dos nossos pais, sobre o aumento do custo de produtos básicos que sabemos lançar mais gente que conhecemos na fome e na miséria. Imaginemo-nos a votar favoravelmente cortes na saúde ou na educação que sabemos levar a que muitos cidadãos deixem de ter acesso a hospitais e escolas. Da parte do que se entende denominar como “Europa” ou “Projecto Europeu” não se poupa nas ameaças e apregoa-se um golpe de Estado, sem qualquer promessa de solução, ainda que falsa. O “Projecto Europeu” abandonou as falinhas mansas e arreganha os dentes a partir dos dois mais importantes representantes do seu “centro-esquerda”. Que todo um povo europeu tenha medo das suas ameaças é a esperança desta “Europa” na certeza que o acordo proposto apenas retarda o chicote acelerando a velocidade num beco sem saída.
Uma eventual vitória do SIM representaria o vergar de um povo. Os cidadãos eleitores abdicariam de decidir, para se colocar nas mãos de quem os tenta aterrorizar. Esta forma de claudicar seria um momento para o qual não encontro precedentes na história dos povos.
No domingo, votar NÃO é um acto de coragem e cultura. Um acto de defesa da soberania, que é cada vez a única forma de defender a democracia.

Aprendamos a dançar sem medo

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109 mil soldados para uma população de 10 milhões de habitantes. 10 militares por mil habitantes. É o país com o rácio mais alto da Europa (França tem 3,5, Espanha 2,5, Portugal 3,1). Nos últimos dez anos, 4% do PIB foi gasto na defesa, o dobro do que a NATO, sempre empenhada em pressionar aumentos orçamentais nesta área, recomenda. Dos países da NATO, somente os EUA gastam mais em percentagem do PIB. Neste mesmo tempo histórico, este país importou equipamento militar no valor de 12 mil milhões de euros. Entre 2005 e 2009 foi o quinto maior importador de armas do mundo. Nas suas fileiras conta com 1620 blindados, mais do que Alemanha, França e Itália juntas.
Este país é a Grécia e estes números foram revelados esta semana pelo “Público” espanhol. Mas há mais um dado particularmente relevante. Grande parte da despesa grega em armamento foi realizada com a Alemanha e França, 4 mil milhões e 3 mil milhões, respectivamente. Segundo o “Guardian”, em 2012, as vendas de armamento para a Grécia representavam 15% do total de exportações alemãs nestas áreas. Yorgos Papandréu, assessor do primeiro-ministro grego entre 2009 e 2011, declarou que ninguém lhes dizia para comprar armas, mas que a UE ficava sempre mais solícita se o fizessem.
O actual braço-de-ferro entre os donos disto tudo e a Grécia não é apenas decisivo para o povo grego. Se a Grécia claudica e aceita o acordo que a pretende vergar e castigar por ameaçar levantar a cabeça, perdemos todos. Se o povo grego rejeitar o acordo, abre-se uma frente que terá de ter correspondência, em Portugal, muito além dos ineficazes manifestos de militante solidariedade. Depois da Grécia, estamos na linha da frente deste plano de extorsão e empobrecimento. Passará por todos nós a decisão de continuar de cabeça baixa à espera dos novos cortes nas pensões/ordenados e aumentos do IVA, ou ganhar coragem e perder o medo.
Não há saídas fáceis. Todos os caminhos de fuga estão armadilhados, mas quanto mais nos deixarmos afundar neste buraco, mais dura será a saída.

(publicado ontem no jornal i)

 

Preparar a saída do euro

Se houvesse dúvidas sobre a possibilidade de países da zona euro divergirem das chamadas “políticas de austeridade” a experiência grega mostra-nos que isso é uma mentira. Mais, estes primeiro meses do novo governo demonstram-nos que a decisão soberana do povo grego só irrita mais quem manda na zona euro.
Parece evidente que só restam duas opções ao governo grego: dobrar a espinha ou defender a saída do euro.
Creio que a maioria dos leitores estará de acordo que este governo não tem condições políticas para decidir a saída do euro depois de ter feito a sua campanha a declarar fidelidade à moeda. O apoio popular, nacional e internacional, é fundamental para que a decisão de reconstrução do país se inicie. Por outro lado, se as sondagens no decorrer da campanha eleitoral indicavam uma maioria de 85% a favor da manutenção da Grécia na zona euro a 19 de Março, a AlphaTV, apresentava um estudo de opinião em que esse valor já andaria pelos 61,2% e em Abril nos 65,1%.

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Num cenário em que o próprio Syriza assuma a impossibilidade de cumprir o programa político para o qual foi eleito e passe a defender a saída é de esperar que isso também tenha uma influência na apreciação popular.
De qualquer forma o referendo é um risco. A saída do euro pode não ser aprovada e o governo fica com um programa político impossível de aplicar no cerco da zona euro. Neste sentido, as declarações do ministro das finanças alemão incentivando a Grécia a fazer o referendo não devem ser motivo de espanto. Schäuble sabe que o apoio ao euro tenderá a diminuir à medida que o cerco anti-democrático apertar ainda mais e que uma eventual decisão popular de manutenção na zona euro arrasa o governo grego. Por outro lado, a zona euro já trabalha num cenário provável de saída da Grécia e, sobretudo a Alemanha e as suas empresas, têm cada vez menos exposição à dívida grega. Merkel, e os seus capatazes em vários governos da Europa, trabalham agora para que uma eventual saída da Grécia seja vista como uma desgraça e um exemplar castigo para qualquer outro governo que se arrogue a invocar a legitimidade popular para questionar as suas políticas.
Na verdade, o que é verdadeiramente decisivo em todo este processo é a forma como o governo grego estará a preparar a possível saída do euro. A “feliz surpresa” com que Tsipras caracterizou o convite da Rússia para que a Grécia adira ao Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) fomentado pelos BRICS é um sinal importante de um apoio internacional que tardava em concretizar-se.
O futuro dos gregos não se prevê risonho mas fazer prevalecer a decisão popular é um bom princípio para recuperar a soberania, a democracia e a dignidade.