Em dia de 1º de Maio, falemos de quem faz o 1º de Maio!

cassandra

Em meados de abril houve uma manifestação em Atenas contra o governo do Syriza a propósito da intenção do governo de acabar com a exploração da mina de ouro de Skouris, a maior das minas de Cassandra, localizadas em Chalkidiki, na região norte da Grécia, e detida quase na totalidade, desde 2011, pela empresa canadiana Eldorado Gold.

Vale a pena relembrar quão cara à esquerda grega a questão de Skouris tem sido. Localizada a céu aberto, esta mina tem sido alvo de uma forte oposição ao longo dos últimos dois anos por parte de movimentos ambientalistas, que denunciam os perigos para a saúde e ambiente associados à exploração da mina (designadamente a possibilidade de haver contaminação das águas por cianeto), bem como da população local e da própria Amnistia Internacional (em 2013 a AI denunciou abusos da polícia, designadamente, o uso de químicos contra os habitantes envolvidos nos protestos, a recolha indiscriminada de amostras de ADN e interrogatórios sem a presença de advogados).

Conhecida a intenção do governo grego de fechar a mina de Skouris, acabando com o projecto de exploração de ouro pela Eldorado Gold – cujo reencaminhamento dos lucros através de paraísos fiscais evitando o pagamento de impostos na Grécia tem sido amplamente denunciado pela esquerda grega – em perfeita coerência com a posição que o Syriza sempre assumiu, a empresa canadiana tratou de mobilizar os trabalhadores das minas para se manifestarem na rua contra o governo. A oportunista apropriação do descontentamento dos trabalhadores, assustados com a hipótese de virem a ficar desempregados no curto prazo, por parte dos sectores mais reaccionários da sociedade grega deve preocupar o governo do Syriza. Apesar de já ter vindo afirmar que irá respeitar os compromissos assumidos com os trabalhadores, o governo grego não pode permitir que se acumulem situações de descontentamento junto de sectores mais vulneráveis, que facilmente se vêm manipulados pela oligarquia grega (sobre isto, vale a pena aprofundar o papel vergonhoso que a família Bobolas teve no processo de privatização das minas de Cassandra que remonta a 2003, nem por acaso, Leonidas Bobolas, detido recentemente por fuga ao fisco e branqueamento de capitais, encabeçou a manifestação dos trabalhadores das minas).

Para além dos esforços empenhados nas negociações com os credores, o Syriza não pode deixar de olhar e mobilizar o povo grego que o elegeu, não se deve emaranhar em questões que se podem revelar estéreis para o bem-estar dos gregos, ignorando um dos pontos mais fortes em que assentou a sua eleição: o equilíbrio entre o combate ao “triângulo do pecado” que Tsipras, enquanto líder da oposição, tantas vezes referiu e que ainda controla o poder na Grécia: os donos dos bancos, os membros do sistema político corrupto e os meios de comunicação social corruptos, por um lado, e a capacidade de oferecer à classe trabalhadora grega, neste caso específico, aos mineiros de Skouris, uma clara alternativa.