“Na hora final, um apelo à sanidade económica e à humanidade”

Chegada a 25ª hora grega e europeia, um grupo de economistas destacados apela à sanidade na edição de hoje do Financial Times. Reproduzimos aqui a versão integral do texto traduzido porJosé Maria Castro Caldas.

“Excelentíssimo Senhor,

O futuro da União Europeia está em jogo nas negociações entre a Grécia e as suas instituições credoras que agora se aproximam do clímax. Para evitar um fracasso são necessárias concessões de ambas as partes. Da parte da União Europeia, indulgência e financiamento para promover a reforma estrutural e a recuperação económica e preservar a integridade da eurozona. Da parte da Grécia, compromisso credível para mostrar que, ao mesmo tempo que se opõe à austeridade, está a favor da reforma e quer desempenhar um papel positivo na União Europeia.

Numa carta ao Financial Times, em janeiro, alguns de nós disseram: “Acreditamos ser importante distinguir austeridade de reformas; condenar a austeridade não implica ser anti reforma.” Seis meses passados estamos consternados pelo facto de a austeridade estar a impedir reformas chave do Syriza em que os líderes da União Europeia certamente deveriam ter vindo a colaborar com o governo grego: particularmente para ultrapassar a evasão fiscal e a corrupção. Continuar a ler

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Austeridade: muito, pouco ou nada? Um estudo a partir da trajetória grega

Sebastian Gechert e Ansgar Rannenberg do IMK (Institut für Makroökonomie und Konjunkturforschung), o Instituto para Política Macroeconómica alemão, compararam a trajetória macroeconómica grega entre 2010 e 2014 com duas situações hipotéticas: uma sem medidas de austeridade, outra apenas com medidas de austeridade do lado da receita. Os dois cenários foram construídos admitindo que a Grécia se mantinha no euro e que os empréstimos da troika se concretizavam. As projeções sugerem que as trajetórias macroeconómicas para qualquer uma das alternativas (pouca ou nenhuma austeridade) seriam melhores do que a realidade (muita austeridade). Estes resultados são importantes no quadro das negociações gregas com os credores e a União Europeia, apoiando a posição grega. Têm também implicações para uma leitura da situação portuguesa: tanto na interpretação da trajetória macroeconómica de Portugal nos últimos quatro anos, como das propostas que os partidos levarão a votos nas próximas legislativas.

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O Barco Pirata (Το Πειρατικό)

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Em 2004 a Grécia qualificou-se para o Euro por uma unha negra. Não acontecia há 24 anos. Nas apostas, disputava com a Letónia o último lugar com uma probabilidade de ganhar o campeonato estimada em 1 contra 150. A vitória contra Portugal (por 2-1), logo no jogo de abertura, deu à seleção helénica a alcunha de “barco pirata”. Passou aos quartos-de-final por um triz, eliminou a França, qualificou-se para a final derrotando a República Checa. E, numa circunstância inédita, a final do Euro de 2004 foi igual ao jogo de abertura… – o resultado também.

Confesso que percebo pouco de futebol e serve a estória apenas para dizer que não há canoa que não possa dar em barco pirata, se a força for suficiente e a vontade for grande. Força: segundo as últimas sondagens, o governo de Tsipras seria eleito com votação idêntica à de janeiro se as eleições fossem hoje, e Varoufakis continua a ser apoiado pela maioria da população. Vontade: a maioria dos gregos afirma querer uma solução de compromisso e recusa a saída do euro.

Duzentos milhões de euros esta sexta-feira e mais 750 milhões a 12 de maio, são os montantes devidos pela Grécia ao FMI nas próximas duas semanas. Em breve, também, irão vencer montantes devidos ao BCE. Acresce ao estrangulamento helénico, a decisão de Draghi, em Fevereiro, de deixar de aceitar dívida pública grega como garantia nos empréstimos a bancos.

É neste cenário que decorrem as negociações que permitiriam à Grécia aceder à última tranche do empréstimo da troika (7,2 mil milhões de euros). Em causa nas negociações não estão decisões que permitam à Grécia, ou sequer à zona Euro, recuperar o crescimento económico: já não devem faltar muitos nóbeis da economia a pronunciar-se sobre a insensatez da política económica da UE de 2010 a esta parte, bem como da razoabilidade das propostas do governo Grego. O que está em causa é uma demonstração de poder. É necessário remeter o único governo europeu eleito com um programa anti-austeridade ao seu papel de obediência, não vá mais alguém ter ideias.

Mas para o governo de Tsipras, é justamente a legitimidade democrática que está em causa. O governo grego já deixou claro que não implementará um programa que não levou a votos – e isso inclui tanto prosseguir a política de austeridade, como optar por uma saída da moeda única. Apesar de continuar a afirmar o seu otimismo no resultado das negociações, o primeiro-ministro Tsipras deixou claro numa entrevista recente que a prioridade do governo é pagar salários e pensões, não é pagar a credores.

Deixou claro, também, que na eventualidade das negociações falharem, será convocado um referendo. Ou seja, se o resultado das negociações inviabilizar o mandato do governo grego,  será com legitimidade eleitoral que a Grécia responderá. De canoa a barco pirata, se tiver que ser, em nome do respeito pela democracia. E não, desta vez o ato de pirataria não será uma derrota nossa.