A Grécia no beco europeu

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Quando se quer muito determinada coisa é difícil que os factos nos convençam do contrário. E há quem queira muito que a Grécia tenha um de dois destinos: ou a ruptura ou a capitulação. E querem que isso aconteça de tal forma que fique provada a irresponsabilidade das compromissos de Alexis Tsipras com o seu povo. É por isso fundamental passar a ideia que, nas negociações em curso, os gregos estão a ser pouco razoáveis.

Na realidade, até podiam ser razoáveis que a conclusão desejada se mantinha: o que eles queriam não era possível, mesmo que fosse aceitável, porque a Europa e os credores não querem. Por isso o melhor é comer e calar. Mas não tem a mesma força do que continuar a passar a ideia de que os gregos são irresponsáveis e radicais, assim como todos os que se atrevam a pôr em causa “a paz dos credores”.

Qualquer pessoa que esteja a acompanhar o que tem sido o massacre social e económico a que a Grécia foi sujeita nos últimos seis anos compreende que acrescentar a tudo o que já foi feito mais dois mil milhões de euros de austeridade anual é uma total irresponsabilidade. O que não resultou até aqui não vai passar a resultar pela insistência. Continuar a ler

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Um braço de ferro com a democracia

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O governo grego tem feito tudo para evitar a bancarrota e para levar uma negociação com os credores europeus (e não apenas uma rendição) a bom porto. No processo negocial com as instituições europeias, tem mostrado até disponibilidade pare suspender muitos dos seus compromissos eleitorais e fazer esforços orçamentais quase impossíveis para o País. Por estes dias, chegou a circular o rumor, talvez verdadeiro quando foi segredado aos jornalistas, de que havia um “plano Junker” para, em troca de algumas contrapartidas, libertar já a última tranche acordada com a troika e o pagamento respeitante a lucros com o programa de compra de dívida, a partir de julho. Isto permitiria que a parte difícil da negociação, que envolve as linhas vermelhas de Tsipras, pudesse ser feita com mais tempo e mais seriedade. O presidente da Comissão Europeia já veio desmentir.

A estratégia de vários poderes europeus é clara: empurrar a Grécia até à bancarrota para que esta ceda em políticas que foram recusadas pelo voto popular.Alterações nas leis laborais, por exemplo. Alterações que, a não ser nas cabeças fantasiosas dos ideólogos que tomaram Bruxelas de assalto, não correspondem a qualquer garantia de crescimento económico e que, por isso, não têm qualquer relação com a sustentabilidade da dívida grega. De resto, são os cortes do costume. E compreende-se que um país onde as 45% das pensões estão abaixo do limiar de pobreza não aceite que fazer ainda mais cortes aqui possa ser a moeda de troca para um acordo. Ou que não esteja disponível para cortar ainda mais nos salários. Estas são, e têm de ser, as linhas vermelhas de Tsipras. Para quem hoje manda nesta Europa seria ouro sobre azul se ultrapassassem essas linhas: ou o governo grego caía ou deixava de corresponder a uma ameaça ao staus quo.

A situação de impasse que as instiruições não eleitas da União estão a alimentar, procurando encostar os gregos à parede, fez disparar as taxas de juro no mercado secundário em 25%, no prazo a dois anos. Isso sim, sabemos a relação direta que terá com a insustentabilidade da dívida grega.

Aquilo a que na Europa se chama “acordo abrangente”, e que é o que continua em cima da mesa para pagar a última tranche do empréstimo, mais não é do que um ato de chantagem político para partir a espinha à democracia grega. E esta última tranche é a oportunidade de o fazer, obrigando o governo eleito pelos gregos a negociar em estado de profunda necessidade e garantindo assim, de uma forma ou de outra, a tal vacina que o movimentos do “consenso europeu” contra a democracia precisa. Até por o governo grego continua a garantir que não vai querer um terceiro resgate. A verdade é que nos 30 meses do governo de Samaras, que por cá há quem tenha o desplante de tratar como mais ponderado e sério do o de Tsipras, houve mais receitas com empréstimos do que despesas com reembolsos. Pelo contrário, desde que o Syriza chegou ao governo, não foi recebido um euro mas pagaram-se 6500 milhões de euros aos credores.

O braço de ferro com a Grécia está muito para lá das garantias de reaver a dívida. É um braço de ferro político que tem uma mensagem clara para os restantes europeus: os programas de governo já estão escritos e não têm de passar pelo escrutínio popular. Esta é a nova Europa que nos é proposta. E o seu vencimento joga-se, em grande parte, em Atenas.

Os gregos estragam histórias fáceis

Alexis Tsipras, Yanis Varoufakis

Se a simplificação é da natureza da mediatização da política, quando a comunicação social trata de países que nos são distantes facilmente apagam-se quase todos os dilemas e contradições com que os atores políticos têm de lidar. E a situação política na Grécia tem sido retratada sem dar grande atenção aos contraditórios e nem sempre conciliáveis sentimentos populares.

Quem, na Europa, espera que a Grécia se transforme numa vacina para países onde movimentos políticos excêntricos ao sistema ganham força eleitoral (o Podemos, em Espanha, por exemplo), tem já escrita a conclusão de uma história que vai variando: o governo grego está em perda eleitoral e acabará por mostrar que quem promete uma alternativa está condenado à derrota. Primeiro, o governo tinha frustrado aqueles que depositaram em si esperanças vãs, numa fé que apenas o desespero poderia explicar. O Syriza, obrigado a um inevitável realismo, estaria a trair as suas promessas e a frustrar o seu povo. Agora diz-se que o Syriza é pouco realista, está a entrar em rutura com a Europa e afasta-se do mesmíssimo eleitorado. Como este tipo de simplificações precisa sempre de um vilão, os maus fígados de Yanis Varoufakis, e não a complexa situação da Grécia, os becos sem saída em que a Europa se foi enfiando e as exigências europeias sem qualquer relação com a dívida grega, explicariam o impasse em que a negociação se encontra.

Do lado inverso, imagina-se que o povo grego se prepara para desembainhar a espada pela dignidade nacional. E que o governo de Tsipras estará condenado a perder a sua base social de apoio se claudicar ou ceder à Europa. Devo dizer que não faço a menor ideia do que sucederá. As possibilidades de um referendo a um acordo mais difícil de engolir pelo Siryza ou da marcação de eleições antecipadas são reais. Mas, nesta Europa, desisti de fazer previsões.

Segundo uma sondagem tornada pública pelo canal televisivo Mega, depois da entrevista televisiva de Alexis Tsipras, 62% dos gregos opõem-se a um referendo e 72% a novas eleições, caso as negociações falhem. Segundo outra sondagem do canal Alpha, 46,4% defendem, neste caso, um governo de unidade nacional. 78% querem mesmo um acordo de compromisso com os credores (o canal Alpha fala de 65%). Apesar de 49,4% dos gregos acreditarem que o risco da Grécia sair do euro é real, 75,6% acham que o país se deve manter no euro a todo o custo (65,4%, segundo o canal Alpha).

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