Será a “irracionalidade” de Merkel assim tão irracional?

Merkel

Depois do acordo encontrado na reunião do Eurogrupo em fevereiro, a posição alemã em relação àquelas que deveriam ser as condições e objectivos a cumprir pelo governo Grego pareceu amenizar-se. As primeiras condições que foram postas em cima da mesa eram basicamente aquelas que já tinham sido acordadas com o governo anterior de Samaras – as condições a aplicar em troca de um terceiro resgate em Junho: corte nas pensões, mais privatizações, aumento de impostos para produtos de primeira necessidade e a continuação da liberalização do mercado de trabalho. No entanto, durante as negociações do Eurogrupo, o governo alemão pareceu suavizar as suas condições prévias e aceitar (pelo menos até Junho) condições – que embora não sejam perfeitas – são sem dúvida melhores para o governo grego.

No entanto, agora que Junho se aproxima perigosamente, Merkel decidiu mudar a sua atitude. Os quatro pilares já negociados com o governo Samaras serão, afinal, para cumprir, sem concessões. Sendo publicamente conhecido que o Estado Grego está perto da bancarrota; e sendo claro desde o início que a dívida grega é impagável e que as políticas de austeridade serviram apenas para o seu aumento, o Governo alemão está mais uma vez a colocar a Grécia entre a espada e a parede, ou seja, entre entrar em bancarrota ou aceitar a continuação das políticas de austeridade que têm vindo a destruir o país.

A arquitetura da Zona Euro favoreceu desde o início a economia alemã enquanto economia exportadora. Mas esta competitividade ganha através da desvalorização do Marco alemão em relação às outras moedas nacionais aquando da passagem à moeda única, foi sempre acompanhada por uma política económica interna de compressão salarial, políticas públicas de industrialização (aquilo que o governo de Merkel recusa aos países do sul da Europa) e o desenvolvimento de bancos especializados para o desenvolvimento económico do país; políticas estas que fizeram da Alemanha o país mais competitivo dentro da Zona Euro e que exporta produtos manufaturados para as periferias europeias (nomeadamente as do Sul). Neste sentido, a economia alemã foi a mais beneficiada pela união monetária – e este facto parece contradizer a atitude intransigente com a qual o governo alemão tem participado das negociações. Se Alemanha é o país mais beneficiado com a arquitetura atual da Zona Euro, porque é que Merkel e Schäuble têm mantido uma posição que pode precipitar a saída da Grécia do Euro e o colapso da Zona Euro como a conhecemos – e que tem sido em sua vantagem? Esta atitude parece quase “irracional”. Mas será mesmo?

O que pretendo argumentar é que não existe qualquer tipo de “irracionalidade” na forma como a Alemanha tem conduzido as negociações e que, aliás, esta posição intransigente é a única posição que permitirá salvar as elites políticas alemãs e provocar o colapso do único governo anti-austeritário eleito até hoje.

Desde o início da crise, a posição do Governo alemão tem sido a de defender as políticas de austeridade como as únicas possíveis para a recuperação económica. Esta posição significa “sacrifícios” para todos os povos da Europa – em particular os dos países intervencionados pela Troika – mas também para a classe trabalhadora alemã, que tem sido alvo de uma brutal desregulação do mercado de trabalho, da precarização das relações laborais, de compressão salarial e de perda de poder de consumo. O instrumento ideológico que tem sido vendido à classe trabalhadora alemã é o de que o projeto europeu colapsaria se “eles e elas” (a classe trabalhadora alemã) não pusesse em prática uma das ideias base do projeto europeu – a “solidariedade” – e portanto pagasse pela “nossa” (povos da periferia europeia) improdutividade e por termos gastos excessivos porque vivemos “acima das nossas possibilidades”. No entanto, o passar dos anos revelaram que as políticas austeritárias não resolvem o problema mas apenas o aumentam (um exemplo básico é o de que a dívida pública grega é hoje maior em relação ao PIB do que era antes da chegada da Troika). Quando o SYRIZA venceu as eleições a 25 de Janeiro, apareceu finalmente uma voz com legitimidade e soberania que pode questionar as instituições europeias por dentro e o processo de hiper-neoliberalização que a Europa tem vivido. No entanto, aceitar as exigências do governo SYRIZA significa aceitar, na prática, que a austeridade falhou e que a agenda política e económica dominada pela Alemanha nos últimos anos serviu apenas o sistema bancário e as elites políticas e económicas. Mais ainda, significaria ter que assumir publicamente que os sacríficos impostos à classe trabalhadora alemã pelo seu governo foram em vão e que aconteceram apenas para re-balançar a relação entre capital e trabalho, em prol do capital.

Neste sentido, uma posição de intransigência por parte do governo alemão é a única estratégia para a sua sobrevivência política – Merkel não quer ser corrida para os vãos da história, tal como aconteceu com o PASOK na Grécia, como começa a acontecer com o PSOE em Espanha e como talvez venha a acontecer com o PS em França. Neste sentido, o meu argumento é o de que a Alemanha está disposta a deixar a Zona Euro colapsar, se essa for a única forma de garantir a sua sobrevivência política (é importante não esquecer que já há, na Alemanha, debates sobre a criação de um Euro exclusivamente para a Europa central e do norte; e que a Alemanha já tem vindo a reencaminhar os seus produtos para outros mercados de exportação como a China). E não há nada de “irracional” nesta linha de pensamento e estratégia, nem na forma como a Alemanha tem jogado o “jogo da culpa” (“the blame game”): se forçarem o Estado Grego à bancarrota e isto criar um efeito dominó desestabilizador da economia europeia por um certo período de tempo, a culpa será facilmente atribuída a um governo grego que não quis jogar pelas regras do jogo e se recusou a aceitar um compromisso “sensato”.

 Ao nível do xadrez da política europeia, esta posição intransigente é também aquela que pode parar um outro efeito dominó – o da multiplicação de governos de esquerda anti-austeritários. Num momento de polarização politica na Europa entre a esquerda radical e a direita radical, em que partidos no espectro político mais distante têm ganho em apoio e simpatia, muito pela recusa da austeridade enquanto política económica e social, dar nem que seja um passo atrás na narrativa de que a “austeridade é a única solução” poderá certamente abrir espaço político a esta polarização. Com o exemplo do SYRIZA à cabeça, isto significa abrir espaço político à esquerda por essa Europa fora.

Mas há ainda um terceiro nível que explica esta posição intransigente de Merkel: as elites europeias sabem que a possibilidade da bancarrota e de um partido de esquerda ser incapaz de cumprir as suas promessas eleitorais (sobretudo num país politicamente tão polarizado como a Grécia), será aquilo que mais facilmente deitará este governo abaixo. Forçar a Grécia a aceitar os pilares do 3o memorando para não criar um possível colapso económico, criará descontentamento e oposição na sociedade grega que votou contra a austeridade, bem como no interior do governo e do partido. Neste sentido, a táctica alemã é a de destruir a esquerda grega “por dentro”.

Com o mês de Junho a aproxima-se a uma velocidade vertiginosa, é importante relembrar, repetir e sublinhar que apenas o apoio da população grega (e de todos os povos seus aliados) pode continuar a dar força a um governo de esquerda para que este possa cumprir o seu programa e resgatar o país das garras da Troika e da crise humanitária. Qualquer que seja o plano A, B ou C, esse plano terá que ser aquele que respeita a vontade e a soberania popular e que responde às exigências por democracia, dignidade e justiça – os três pilares da campanha eleitoral do SYRIZA. Pelo futuro do povo grego. E pelo nosso.

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