A crise, os refugiados e a solidariedade

Há mais de dois anos que se iniciou a maior vaga de refugiados e migrantes desde a II Guerra Mundial. Por causa da sua posição geopolítica a Grécia é um ponto de passagem para as centenas de milhares de pessoas que tentam alcançar o Norte da Europa, através da travessia do Mediterrâneo ou via terrestre pela Turquia, para sobreviverem à miséria, à guerra e às perseguições políticas e religiosas. É uma travessia em busca de um qualquer futuro.

Grécia, ponto de passagem
Em consequência da posição geopolítica da Grécia, a História do país é uma História de guerras, ocupações e de reconfiguração das fronteiras. É uma História com inúmeros episódios de acolhimento de refugiados e migrantes. Foi assim com as guerras com o Império Otomano e, mais tarde, com a Turquia relativamente a Chipre. Foi assim na década de 90 do século passado após o fim do bloco de leste e o colapso da ex-União Soviética, com a consequente vaga de imigração proveniente da Albânia, Sérvia, Croácia. Mas é também assim hoje com a vaga de refugiados proveniente do Norte de África, África subsahariana e Médio Oriente. Os refugiados e migrantes têm duas rotas, através da Grécia, para chegarem ao Balcãs e depois à Alemanha: 1) a partir do Norte de África tentam atravessar o Mediterrâneo mesmo correndo o risco de perecerem na tentativa, e que já causou mais de 30 mil mortos; 2) ou através da Turquia, navegando em barcos com condições muito precoces em direcção às ilhas de Kos, Lesbos e outras ou atravessando a fronteira turca com a grega a pé.
A incapacidade dos vários governos gregos ficou espelhada nas políticas que encetaram para fazer face aos refugiados. O governo PASOK (2009-2011) e, mais tarde, da coligação ND-PASOK (2012-2014), apoiados pela União Europeia e restantes Estados-membros, encetaram políticas de criminalização e militarização das fronteiras. A primeira baseia-se nos conceitos de “ilegais” e “clandestinos” utilizados nos discursos dos governantes e reproduzidos pelos grandes meios de comunicação social com o objectivo de desumanizar os refugiados e os migrantes, ao mesmo tempo que se contruíram inúmeros centros de retenção com condições que violam a dignidade humana. Por outro lado, a militarização consiste na “protecção” das fronteiras contra uma vaga de indesejáveis, criando muros, valas e vedações nas fronteiras terrestres e operações de patrulhamento e destruição das embarcações “clandestinas” no Mediterrâneo, camuflando-o com um discurso de protecção das vidas humanas. Por exemplo, a Hungria já destacou as suas forças armadas para as suas fronteiras com o objectivo de impedir a passagem dos refugiados até pelo uso da força. Na linha da frente deste tipo de políticas encontra-se a Frontex, uma agência militar europeia encarregada de coordenar os esforços de segurança nas fronteiras da União Europeia recorrendo ao dispositivo militar facultado pelos Estados-membros. No entanto, tem-se começado a assistir a outras duas tendências: a das quotas de acolhimento de refugiados (os migrantes estão excluídos) que cada Estado deve cumprir e o pagamento a Estados fora da União Europeia para travarem a vaga de refugiados e migrantes, tendência que não é estranha na política europeia, pois Berlusconi, ex-primeiro ministro italiano, pagava a Qadafi para impedir que migrantes líbios tentassem chegar à ilha italiana de Lampedusa. Entre as negociatas de recepção de números claramente insuficientes para resolver a crise dos refugiados e migrantes – por exemplo, Portugal apenas irá receber 5 mil refugiados, quando centenas de milhares se encontram na Europa – entre os líderes europeus e o pagamento à Turquia para impedir que os refugiados passem, o problema mantém-se. O objectivo não é resolver a crise, mas apenas geri-la conforme os interesses dos respectivos Estados europeus e dos seus partidos no governo, pois não nos podemos esquecer que os partidos de extrema e direita-radical têm subido um pouco por toda a Europa, o que pressiona os partidos do centro-direita a radicalizarem o seu discurso para não perderem o seu eleitorado. Entrentanto, mais pessoas morrem no Mediterrâneo e com “sorte” passam por situações que violam a dignidade humana.
Mas existe esperança. Não nos líderes europeus, mas nas sociedades civis dos Estados-membros da UE, principalmente nos que se confrontam directamente com a vaga de refugiados e migrantes, como a Grécia. Perante um Estado Social em completo colapso e a generalização da pobreza, os gregos desenvolveram um Estado Social paralelo com base em centros sociais, escolas e clínicas de solidariedade. Um movimento alargado em que o ser humano está no centro das actividades do respectivo colectivo e em que se recusa o assistencialismo, a “caridadezinha” e as leis do mercado para se criarem alternativas de democracia-directa, solidariedade e igualdade. Uma pessoa que requeira ajuda nesses colectivos não é apenas ajudada, é lhe dada a oportunidade de participar na gestão e organização das respectivas actividades. Com a crise dos refugiados e migrantes estes colectivos adaptaram-se para fazer frente às novas necessidades, demonstrando que estes não são inimigos do povo grego, como o Aurora Dourada tantas vezes afirma publicamente, mas aliados, iguais, pessoas também em dificuldades. A unidade faz a força. Assim, estes colectivos estão, em conjunto com algumas organizações não-governamentais, na vanguarda do auxílio aos refugiados e migrantes. O Estado grego demonstrou ser incapaz no cumprimento das suas responsabilidades face aos Direitos Humanos, ao mesmo tempo que foi abandonado, em conjunto com a Itália, pelas instituições europeias e restantes Estados-membros.
A segurança sempre foi o pilar fundamental da estratégia europeia face aos refugiados e migrantes e não o respeito pelos Direitos Humanos, esses serviram, e continuam a servir, apenas para camuflar a prática securitária. Um dos muitos exemplos de como a Europa não reage cabazmente à crise dos refugiados e migrantes é o campo de Edomeni.

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O campo de Edomeni
No domingo, 11 de Outubro, visitei o campo de Edomeni, localizado na fontreira grega com a da Macedónia e o principal ponto de passagem da Grécia para o resto da Europa via Balcãs. Deste ponto, os refugiados e migrantes dirigem-se para o Norte da Europa, passando pela Sérvia, Croácia, Eslovénia, Áustria até chegarem à Alemanha, donde se podem dirigir para o resto do Norte da Europa se assim o quiserem. Fazem milhares de quilómetros a pé, de autocarro ou de comboio, quando estes são fretados pelas autoridades do Estados onde se encontram.
Em Edomeni vi centenas de refugiados. Bebés, crianças, jovens, mulheres e adultos em condições deploráveis, desumanas. Famílias inteiras. Várias gerações. Todos a tentarem chegar ao Norte da Europa para fugirem de guerras, de perseguições políticas e religiosas, de devastações climáticas, do desemprego permanente, da pobreza extrema. Vi sírios, iraquianos, paquistaneses, afegãos. Todos lutam por uma vida, pela sobrevivência. Só segunda, terça e quarta-feira passam pelo campo, montado há apenas três semanas e sem electricidade corrente, 24 mil pessoas. No domingo até às 13h30 já tinham passado cerca de 3 mil, transportados de Atenas para Edomeni por cerca de 80 expressos, e continuavam a chegar muitos mais. Chegam a toda a hora, sem parar. Mas o campo, que apenas possui nove tendas para tudo: cuidados médicos, distribuição de comida e de roupas, locais para comer e descansar, não se pode alargar, pois ao lado encontra-se uma propriedade privada abandonada inviolável, esse princípio sagrado das democracias-liberais. A única coisa que resta aos vários voluntários das ONGs presentes (ACNUR, Cruz Vermelha, Médicos do Mundo, Médicos sem Fronteiras, Praxis, entre outras) sem qualquer apoio governamental, e muito menos europeu, é fazerem o máximo que podem com os poucos recursos que possuem. São medidas paliativas e que não resolverão a crise, mas são fundamentais para muitos refugiados e migrantess. Sem elas estariam completamente abandonados à sua sorte.
O funcionamento do campo é muito simples. Quando os expressos com os refugiados chegam, estes são dirigidos em grupos (cada expresso transporta um grupo entre 50 a 80 pessoas) para a tenda de distribuição de comida e depois para as de descanso. Os refugiados que precisarem de tratamento médico são vistos enquanto se mantêm na fila para a alimentação. Depois de se alimentarem ficam no campo à espera pela vez do seu grupo passar para a Macedónia, o que, conforme a vontade das autoridades fronteiriças macedónias, pode demorar horas. Enquanto aguardam muitos deambulam pelo campo ou dirigem-se para a tenda de distribuição de roupas. Ali pedem sapatos, calças, mochilas, casacos, meias. Frequentemente os voluntários lhes respondem que já não há, que as recolhas do dia já foram todas distribuídas ou que as roupas estão todas molhadas por causa da chuva. A cada nega os voluntários fazem uma cara de desespero, de culpa até, quando sabem que a culpa não é deles, que tentam fazer o máximo que os seus esforços permitem com os recursos que têm. Ao todo o campo conta com cerca de 50 voluntários que fazem turnos de oito horas num sistema de rotatividade. O próprio Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) apenas conta com três técnicos. A organização confronta-se com sérios problemas de financiamento para fazer face a todos os desafios, não apenas na Grécia, mas no mundo.
É frequente ver gregos a título individual dirigirem-se ao campo com sacos cheios de comida e de roupas para darem aos colectivos e às ONGs, mas também carrinhas com bens recolhidos em Salónica pelos vários colectivos. A solidariedade de um povo que passa por uma verdadeira crise humanitária é fenomenal.
As condições sanitárias no campo são muito précarias. As casas-de-banho rondam as trinta e são portáveis. Pelas 11 horas já se encontram inutilizáveis de tão sujas que estão. Com um fluxo tão grande são necessários voluntários que as limpem permanentemente, o que falta. À medida que caminhamos pelo campo confrontamo-nos com um cheiro a podridão, cheiro que advém dos vários caixotes de lixo abarrotados ao lado das tendas de distribuição de comida e das tendas para comer e descansar. Estas também se encontram frequentemente cheias de lixo, pois não são limpas permanentemente, mas no final do dia, quando milhares de pessoas já passaram pelo mesmo local. O descampado à volta do campo encontra-se cheio de água suja proveniente das chuvas da época misturada com lixo. Todas estas deploráveis condições sanitárias são propensas ao aparecimento de doenças como a sarna, pois a par destas condições presenciei um cão com essa doença passar pelo meio dos refugiados. O seu contágio é muito fácil e rápido, agravando a crise humanitária.
O fluxo irá provavelmente aumentar nos próximos tempos, principalmente agora que a Rússia está a intervir directamente no conflito sírio e os Estados Unidos decidiram intensificar o seu apoio, financeiro e logístico, aos rebeldes que apoiam através da Arábia Saudita. O Inverno está a chegar e os refugiados e migrantes encontram-se numa luta contra-relógio, daí os casacos serem tão pedidos por eles no campo de Edomeni, por exemplo. A subregião dos Balcãs tem no Inverno temperaturas que roçam os 0 graus celsius.
É impossível ficar-se indiferente após a visita ao campo. Fica-se sem palavras. Apenas sabemos que a Europa atingiu o ponto mais baixo de sempre. Só isso. Nada mais.

Escrito a partir de Salónica, Grécia.

Artigo originalmente publicadoDSCF2393 na Revista Beira

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