O Aurora Dourada e o movimento antifascista II

O movimento antifascista: história, organização e estratégia

Se o fascismo esteve presente em certos momentos da História política contemporânea grega e se afirma actualmente, também o movimento antifascista esteve e está presente na luta política, económica e social. Desde o fim da Ditadura dos Coronéis que o movimento fascista tem estado activo, mesmo com altos e baixos. No entanto, começou a fortalecer-se novamente a partir da década de 90, quando a questão da Macedónia exacerbou o nacionalismo grego e as forças políticas de extrema e direita-radical se começaram a organizar novamente e a ganhar um maior foco eleitoral e presença nas ruas gregas. Foi precisamente a existência e fortalecimento do movimento antifascista, bem como a não existência de condições políticas, económicas e sociais favoráveis, que impediram a ascensão do Aurora Dourada, e dos restantes grupos marginais, durante mais de 20 anos, até 2010. À medida que o partido se foi consolidando, também o movimento antifascista se foi alargando, principalmente no seio da juventude, nomeadamente nos estudantes.

O movimento antifascista é um conjunto de organizações e colectivos de várias tendências políticas, desde a esquerda-radical à extrema-esquerda, não deixando de lado os anarquistas, além de pessoas a título individual que simplesmente se opõem ao fascismo e ao que este significa para a vida de milhões de pessoas. De forma alguma pode ser considerado um movimento centralizado, pois uma das suas riquezas é a sua própria descentralização. O que une todas as organizações, colectivos e pessoas a título individual que o compõem é simplesmente a luta contra o fascismo e as suas forças, pois noutros assuntos podem facilmente divergir entre si. Todas as organizações participam no movimento de acordo com a sua própria agenda política e com as capacidades que possuem, marcando manifestações autónomas a que as restantes organizações, colectivos e pessoas a título individual decidem se participam ou não. As assembleias antifascistas são comuns no seio de cada organização ou colectivo, a que se somam as assembleias “gerais” do movimento sempre que tal se justifique. O contacto entre os activistas antifascistas é permanente.

No entanto, há certos momentos em que o movimento antifascista age como um todo, como, por exemplo, no dia de memória do assassinato do rapper Pavlo Fyssas. Neste dia todos os antifascistas se juntam e marcham juntos. Outro dos exemplos é quando alguma entidade pertencente ao movimento antifascista é atacada por forças fascistas, como os Esquadrões de Ataque do Aurora Dourada. Quando tal acontece todo o movimento se organiza e reage em unísono, por meio de manifestações ou até mesmo de retaliações violentas contra as sedes do partido, tal como aconteceu no início dos anos 2000 em Salónica. Após uma assembleia “geral” antifascista decidiu-se retaliar agressivamente contra a sede local do Aurora Dourada, tendo-se reunido 250 antifascistas numa hora. Cercaram o respectivo prédio, fecharam a rua, alertaram os moradores que estava tudo bem e que o alvo era o Aurora Dourada e invadiram o apartamento onde se encontrava a sede local, que foi completamente destruída. Em resposta o Aurora Dourada transferiu a sede para uma rua mais afastada do centro da cidade – que é controlado pelo movimento antifascista –, onde se encontra o tribunal da cidade e o quartel-general das forças de intervenção da polícia. No prédio ao lado da nova sede do Aurora Dourada encontrava-se a sede do sindicato da polícia. A escolha deste local pelas chefias do partido levantou questões sobre a relação entre as forças neonazis e a polícia e seus dirigentes sindicais.

Se analisarmos as práticas do movimento antifascista conseguimos delinear quatro eixos estratégicos orientadores que todas as organizações e colectivos cumprem de forma independente (e dependendo das suas capacidades), que são: 1) criação de colectivos de bairro antifascistas para impedir a expansão das forças fascistas e dos seus eventos pela cidade, organizando manifestações; 2) disputa de influência através da produção de propaganda (flyers, jornais e cartazes), de debates e de grandes eventos antifascistas, como o Festival Antifascista, que todos os anos se dá em Salónica em Junho, ou o Torneio de Kickboxing Antifascista, que se realiza há dois anos consecutivos e que recebeu atletas da Alemanha, Espanha, Itália, Polónia, Holanda, Suíça e, claro, gregos de todo o país, e, por fim, a criação de websites de monitorização das actividades do Aurora Dourada e de call-centers onde as pessoas podem ligar para pedirem ajuda ou comunicar actividades que tenham presenciado ou que saibam que irão acontecer; 3) criação de colectivos de solidariedade para os mais pobres, desempregados e imigrantes, tentando minimizar as suas carências materiais e disputando esta área com os neonazis, que também organizam os seus centros de assistência só para “gregos”; 4) apresentação de alternativas ao fascismo com o aprofundamento de práticas de democracia directa, de auto-gestão, de igualdade e de solidariedade, principalmente nos colectivos de bairro, nos centros de solidariedade e nas assembleias antifascistas. Todos estes quatro eixos se inter-relacionam de forma profunda, compondo uma estratégia transversal perante a sociedade grega. Uma estratégia ofensiva contra as forças fascistas, mas também construtiva, de prevenção, sob as condições que permeiam o avanço social do fascismo.

Durante a sua ascensão o Aurora Dourada espancou e assasinou imigrantes, levando o movimento antifascista a intensificar a sua luta de forma cada vez mais agressiva, enquanto o poder político nada fazia. No entanto, com o assassinato do conhecido rapper antifascista Pavlo Fyssas, em Setembro de 2013, o poder político foi obrigado a tomar medidas contra o partido nazi em consequência de uma enorme pressão da sociedade e de alguns meios de comunicação social. A partir desse momento alguns dos seus altos dirigentes foram acusados de terem montado uma organização criminosa, o que poderá levar à ilegalização do partido como a constituição grega estipula. Tanto o mediatismo como os processos judiciais levaram ao fortalecimento do movimento antifascista, ao mesmo tempo que o Aurora Dourada decidiu acalmar as suas actividades violentas para se poder afirmar como vítima de uma conspiração, publicando vários comunicados de imprensa em que denunciavam o processo judicial e se afirmavam como mártires da sua luta e ideologia. O Aurora Dourada passou à defensiva, quando antes estava à ofensiva. Com o avanço do movimento antifascista e a enorme pressão mediática começou a não poder agir como antes, tendo deixado de controlar vários bairros. Em Salónica, por exemplo, o Aurora Dourada está confinado à sua sede, mas em Atenas a situação é mais complicada, pois é aí que o epicentro da acção do partido se encontra. No entanto, se nas ruas o Aurora Dourada recuou imenso, tal já não se pode afirmar no que concerne à sua actividade parlamentar, como demonstram os resultados das eleições de 20 de Setembro de 2015: 18 deputados conquistados, 6,95% dos votos, mesmo que a abstenção tenha sido a maior de sempre. A sua manutenção como terceira maior força política parlamentar no sistema político grego demonstra que possui um eleitorado fiel e não volátil, o que é uma enorme preocupação.

Perspectivas

A situação actual não nos permite de forma alguma afirmar que uma eventual progressão eleitoral, e mesmo nas ruas, do Aurora Dourada se encontra fora de questão. Mesmo que o partido seja ilegalizado, em consequência do acordão do processo criminal, nada leva a crer que não escolha a via da violência, nomeadamente nas ruas, ou que os seus militantes criem outro partido similar, mesmo que a sua liderança esteja na prisão. Na luta contra o fascismo não basta a via legal, é preciso também impedir o seu avanço político nas várias áreas urbanas e rurais e combater as condições políticas, económicas e sociais que lhe permitem conquistar apoiantes. A luta tem de ser global e não apenas legalista.

Com a assinatura do Terceiro Memorando de Entendimento por parte do Governo Syriza-ANEL, a 13 de Julho de 2015, a situação política, económica e social irá agravar-se, podendo facilitar a expansão do Aurora Dourada ou de outro partido similar. Um provável colapso do Syriza, a grande esperança da maioria dos gregos na luta contra a austeridade e na regeneração de um sistema político deslegitimado, e à medida que for aplicando o terceiro memorando, poderá levar muitos desapontados a escolherem o partido nazi. Perante a instabilidade política e a desordem do dia-a-dia, o discurso autoritário e de ordem do fascismo pode vir a colher frutos. É neste contexto que se considera fundamental a reorganização das forças de Esquerda gregas, nomeadamente da Unidade Popular, para apresentarem propostas políticas que se afirmem como alternativas concretas e reais aos estudantes, trabalhadores, pensionistas e reformados gregos. Uma proposta que tenha em conta os erros da estratégia encetada pelo Syriza nos primeiros sete meses da sua governação, mas mais profunda.

Os próximos meses serão terrivelmente desafiadores para o movimento antifascista, um movimento que até agora mostrou estar à altura, mesmo que sozinho, mas também para toda a Esquerda grega.  Perante a ascensão de forças de extrema e direita-radical no continente europeu temos muito a aprender com o movimento antifascista grego.

Escrito a partir de Salónica, Grécia

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