O momento da verdade da Europa

 

Até agora, todos os avisos sobre a ruptura iminente do euro têm sido refutados. Os governos, independentemente do que tenham dito durante eleições, têm cedido às exigências da troika; ao mesmo tempo, o BCE têm intervindo para acalmar os mercados. Este processo manteve a moeda unida, mas também perpetuou austeridade profundamente destrutiva – não deixem que uns modestos quartos de pontos de crescimento de alguns devedores apaguem o custo enorme de cinco anos de desemprego em massa.

Em termos políticos, os grandes perdedores deste processo têm sido os governos de centro-esquerda, a quem o consentimento de duras medidas de austeridade – e, portanto, o abandono de tudo aquilo que deveriam defender – causa muito mais danos do que medidas similares causam ao centro-direita.

Parece-me que a troika – é tempo de parar a ideia de que alguma coisa mudou e voltar para o nome antigo – esperava, ou pelo menos tinha fé, de que a Grécia ia repetir esta história. Ou Tsipras faria o costume, abandonando a maior parte da sua coligação e provavelmente sendo forçado a aliar-se com o centro-direira, ou o governo Syriza cairia.
E ainda pode acontecer.

Mas por enquanto Tsipras parece relutante em render-se. Em vez disso, perante um ultimato da troika, marcou um referendo para decidir se aceita. Isto tem levado a muitos lamentos e declarações acusando-o de irresponsabilidade quando, na verdade, está a fazer o correcto, por duas razões:

Primeiro, se ganhar o referendo, o governo grego vai sair com o seu poder reforçado pela legitimidade democrática, coisa que, acho eu, têm importância na Europa. (E, se não tem, também precisamos de saber.)

Em segundo lugar, até agora o Syriza tem estado num lugar incómodo politicamente, com eleitores furiosos mais exigências de austeridade, ao mesmo tempo que rejeitam sair do euro. Tem sido difícil perceber como conciliar estas duas aspirações; ainda mais difícil agora. O referendo irá, na prática, pedir aos eleitores que escolham as suas prioridades, e dar a Tsipras um mandato para o que fazer caso a troika estique a corda.

Se querem que vos diga, foi um acto de loucura monstruosa por parte dos governos credores, ter empurrado a coisa até este ponto. Mas eles fizeram-no, e não posso de todo culpar Tsipras por se virar para os seus eleitores, em vez de se virar contra eles.

Por Paul Krugman, no NY Times.

 

PS: aqui intervenção de Yanis Varoufakis sobre as propostas do Eurogrupo.

Anúncios

One thought on “O momento da verdade da Europa

  1. Sou a favor de referendos em geral (tenho algumas questões em referendar temas relacionados com costumes e direitos, mas não é este o caso). E sem por em causa a pertinencia do referendo grego, parece-me que a mais lógica solução.
    Caso o governo grego tivesse aceite o ultimato europeu (que lhe foi feito, apesar de desmentidos) teria de o por a votação no seu parlamento. É certo que o acordo não tinha o apoio unanime da bancada do Syriza e portanto dois cenários eram possíveis:
    1) O acordo era rejeitado pela maioria.
    Neste caso, governo perdia o apoio parlamentar, legitimidade política e seria forçado a convocar eleições.
    2) O acordo era aprovado, mas com votos favoráveis de outros partidos. A bancada do Syriza desintegrava-se e sem maioria parlamentar Tsipras seria “convidado” a formar um governo de unidade nacional com a ND, Pasok, To Potami, etc e acho que este era o desfecho mais desejado pelos credores. Mas a viabilidade deste governo de unidade nacional era nula, não me parece que durasse mais de um dia e portanto o resultado seria mais uma vez eleições antecipadas.
    Perante o ultimato, o referendo é a solução mais lógica, a que garante mais estabilidade e legitimidade politica e a que demora menos tempo. Tem ainda a vantagem de dar uns dias (poucos) aos credores para tirarem um coelho da cartola e apresentarem uma solução real à Grécia que justifique um acordo e a desconvocação do referendo.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s