A alternativa não é o abismo

No artigo publicado esta segunda-feira no Guardian, que hoje mesmo o DN traduziu, o historiador Timothy Garton Ash faz notar algumas das pesadas consequências para a generalidade dos gregos, e também para muitos dos Estados da zona euro, que se encontram associadas a uma eventual saída da Grécia da moeda única. A aventura do tão temido quanto desejado Grexit, independentemente da sua aparente inevitabilidade, e de alguns problemas que, pelo menos aparentemente, pode de facto resolver, não deixa de ser isso mesmo, uma aventura.

Ela traduz, no olhar de Ash, um inevitável afastamento em relação à matriz europeia da nação grega, um fechamento desta sobre si própria, a criação de uma situação de subalternidade em relação à Turquia, seu concorrente histórico na região, e, dir-se-á também, uma dependência maior, com consequências não menos imprevisíveis que as que neste momento se configuram por causa da situação de insolvência, em relação aos interesses económicos e geoestratégicos da Rússia e da China. Além de que produziria rapidamente a maior descida do nível de vida da história recente do país. Se tal ocorresse, a resolução do problema da dívida traria assim consequências que, no imediato, seriam ainda mais pesadas que as produzidas por estes anos de brutal austeridade, e «os gregos se perguntariam para quê terem sofrido tanto.»

Uma leitura do artigo de Ash deixa um sabor amargo, sem dúvida. Ela reduz bastante a margem de segurança e de sustentabilidade da opção dos que consideram o abandono grego da União Europeia como a melhor solução. Aquela que alguns apontam desde o próprio momento da adesão, aquela que têm defendido de maneira recorrente – mesmo contra a opinião da larga maioria dos gregos – e aquela também que desejam para outros países, como Portugal. Mas ao mesmo tempo sustenta a posição que o próprio primeiro-ministro Alexis Tsipras tem defendido de forma cada vez mais insistente: a de que a Grécia tem de pedir o cancelamento da dívida. A de que a espiral da dívida pública que sufoca muitos países da UE tem imperativamente de deixar de ser vista como um destino incontornável e sem fim.

Para tal os governos europeus, ou pelo menos a sua maioria, têm de o reconhecer e colocar na primeira linha dos seus programas. Salvando assim um projeto que tem vivido mal mas pode e deve ser profundamente revisto pela intervenção de uma maioria de governos, para tal democraticamente referendada (e politicamente pressionada) pelos seus eleitores. Não fazer como Passos e Cavaco, que cegos pela sua missão de aplicar de forma subserviente e cega os ditames de Bruxelas e de Berlim, se põem em bicos de pés, tentando convencer quem ainda os escuta que a alternativa a tal escolha é o abismo.

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