Antes o poço da sorte que tal morte

tunel

Estamos no início de mais uma “semana decisiva”, uma das muitas que têm marcado o impasse entre as instituições europeias, o FMI e o governo grego. Este prognóstico recorrente tem um fundamento. É crescentemente evidente que há um impasse e é também crescemente evidente que o impasse é político. Não tem nada a ver com a restruturação da dívida ou as metas do saldo primário. E também não tem a ver com “trabalho” como gostam de dizer os dirigentes europeus. O centro da divergência são as medidas a implementar e as posições parecem irredutíveis.

O caminho para esta irredutibilidade é, no entanto, bastante diferente. Enquanto o governo grego já deixou cair várias das suas propostas, a reestruturação da dívida, incluiu algumas exigências das instituições, comprometeu-se com metas pouco sensatas para o saldo primário, as instituições estão essencialmente imóveis. A posição actual da Europa é muito próxima do seu ponto de partida, sobretudo no que à política diz respeito. De tal forma é assim que várias das medidas que estão a ser exigidas ao novo governo grego constavam do programa… de Samaras.

Hoje, de entre as medidas que estão a ser exigidas, constam cortes nas pensões equivalentes a 1% do PIB e um aumento do IVA que garanta uma receita adicional também de 1% do PIB. Só estas duas exigências do FMI resultariam numa contracção do PIB entre os 1,8% e os 3,4%, de acordo com os cálculos do… FMI. Ou seja, se aplicarmos a estas medidas insanas os resultados do estudo realizado pelo próprio FMI, o que está a ser proposto governo grego é que mergulhe deliberada e conscientemente a sua economia numa nova recessão económica. Ora, parece cada vez mais claro que isso não vai acontecer.

À medida que o impasse se prolonga, a linguagem de alguns dirigentes europeus vai assumindo um tom colonial crescente. A vontade dos eleitores gregos é um dado ausente desta discussão. A sua “posição negocial” é simples: o governo grego deve aplicar a política que as instituições “recomendam” e que produziu os resultados que hoje podemos observar.

Este impasse coloca o governo, mas também o povo grego, perante um impasse. Se o governo tem, um mandato para rejeitar mais austeridade, tem também um mandato para manter a Grécia no Euro. E é cada vez mais evidente que o falhanço de um acordo político acarretará a continuação do corte no financiamento europeu, que significará, a curto prazo, um incumprimento por parte da Grécia, de consequências imprevisíveis.

As sondagens na Grécia reflectem e replicam a contradição que o governo grego enfrenta:

  1. Os gregos apoiam maioritariamente o governo e o Syriza tem aparece com votações semelhantes ou superiores, conforme as sondagens;
  2. A esmagadora maioria rejeita a saída do Euro (o que tem sido muito referido)
  3. A esmagadora maioria rejeita as novas medidas de austeridade propostas pelas instituições europeias e pelo FMI (o que tem sido bem menos referido);

Esta contradição só poderá ser superada ou através de uma expulsão da Grécia do Euro por parte das instituições europeias ou pela renovação do mandato democrático deste governo, seja por via eleitoral ou referendária. Qualquer que seja o desenlace deste impasse, é hoje impossível imaginar que os gregos sigam pelo caminho conhecido que os trouxe até aqui. Entre um confronto aberto com as instituições europeias com resultados incertos e imprevisíveis e a desgraça certa e previsível que lhes está a ser impingida, a decisão não é assim tão difícil. Se as instituições europeias apostam que no fim os gregos acabarão por baixar a cabeça, é capaz de vir a ter uma surpresa.

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