“O Syriza não é totalmente contra a saída do euro” – Loudovikos Kotsonopoulos

loudovikos

Terão sido os quatro meses mais intensos que um novo Governo terá enfrentado, na recente história europeia. O executivo do Syriza, liderado por Alexis Tsipras, tem em mãos a difícil tarefa de fazer a quadratura do círculo – por um lado cumprir as promessas feitas na campanha eleitoral, por outro chegar a acordo com os credores e garantir financiamento.

Para fazermos uma análise a estes quatro meses de governo grego, aproveitei a passagem por Lisboa de Loudovikos Kotsonopoulos … Professor de História Social na Universidade de Pantion… Na entrevista que fiz e que aqui transcrevo (o áudio está aqui no site da RTP para quem preferir), KOTSONOPOULOS começa precisamente por dizer que estes foram quatro meses muito difíceis.

 

O governo do Syriza está a comemorar 4 meses no poder. Que balanço faz?

Estes quatro meses têm sido muito difíceis. Estamos envolvidos numa negociação muito complicada e ao mesmo tempo estamos a tentar encontrar algum espaço para respirar.Queremos implementar parte do nosso programa, queremos cumprir todas as promessas, mas precisamos de tempo e espaço para conseguir fazer isso. A nossa prioridade é lidar com a crise, essa é a nossa maior preocupação, mas ao mesmo tempo queremos negociar um acordo viável, um acordo que restabeleça a nossa economia e que nos permita governar à esquerda.

O governo já foi capaz de suavizar os efeitos da crise e das medidas de austeridade?

Sim, até certo ponto sim. Já aprovámos uma lei no parlamento que alivia a população mais pobre e queremos levar essas medidas mais além. Os nossos credores não ficaram muito contentes, mas isso não nos impediu de agir. Porque este era o nosso objectivo: proteger o povo.

Ainda assim alguns críticos dizem que essas medidas estão bastante longe do programa inicial do Syriza…

Isso é verdade, porque estamos a lidar apenas com parte do problema. A parte com a qual podemos lidar neste contexto e nesta conjuntura. Mas as medidas que tomámos já estão a ter efeitos.

A que tipo de medidas se refere?

Estou a falar de medidas relacionadas com as subvenções para o pagamento de rendas aos mais pobres, também para a gasolina e electricidade e algumas medidas destinadas aos sem-abrigo.

Parece que o Syriza tem inimigos nos setores mais conservadores europeus, mas também em movimentos à esquerda que não concordam com o adiamento do reestruturação da dívida. Acha que isto é inevitável?

Sem dúvida. Os países do sul não conseguem sobreviver com esta dívida. Tenho a certeza de que será feita uma reestruturação num futuro muito próximo. E não apenas para a Grécia. Portugal e Itália também serão forçados a negociar esta reestruturação.

Como pode explicar o facto de o Syriza estar a perder tanto tempo nas negociações com os parceiros europeus?

Para alcançar essa reestruturação e para fazer regressar a nossa economia aos padrões da zona euro temos que chegar a um acordo com os credores. O Syriza está muito empenhado nestas negociações e está a tentar tirar dessas negociações a melhor solução possível.

Acha que este acordo vai resolver os problemas do Syriza no curto prazo?

Nesta fase estamos a falar de uma negociação para aquilo a que chamamos de acordo intercalar. Algo que nos vai permitir ter alguma liquidez e manter negociações paralelas até setembro, altura em que olharíamos para o restante problema. Isto é muito importante, porque vai permitir-nos pôr a economia de novo nos eixos e vai dar-nos espaço para maior desenvolvimento, para que possamos redistribuir novamente a riqueza pelo povo. Sem desemprego, por exemplo. É por isso que estamos tão envolvidos nestas negociações. Uma ruptura, nesta altura, significa que passamos a governar num cenário de incerteza e ninguém quer isso. É por isso que estamos a tentar ganhar tempo, para que outros países intervenham nesta negociação. Isso deve acontecer! Os países do sul devem entrar nesta discussão.

Estarão mesmo a ganhar tempo com as instituições internacionais? É que o tempo parece esgotar-se para aos rgegos que estão a ficar sem dinheiro para pagar as tranches de Junho…

Sim, isso é verdade. É por isso que estamos a tentar este acordo intercalar. Para nos dar mais tempo a nós e a outros países da europa.

Acredita que será assinado nos próximos dias?

Provavelmente sim, mas não tenho a certeza, porque não estou envolvido directamente nas negociações. Calculo que seja assinado um qualquer tipo de acordo.

Porque diz que Setembro será uma das datas-chave para o Governo?

Porque, ao que dizem, é em Setembro e Outubro que vamos entrar nas negociações a sério sobre como reestruturar a dívida, sobre como iremos receber o terceiro resgate, sobre a recuperação da economia. Essa negociação vai ser decisiva para o país.

Como está o apoio ao governo entre a população?

O apoio ao Governo é elevado, apesar das tensões que existem dentro do próprio Governo. Se olharmos para as sondagens, o que vemos é diferente da realidade que observamos no dia-a-dia, com as querelas permanentes entre os membros do governo. E essas querelas são justificadas, algumas. Estamos a atravessar uma fase de grande incerteza, os ânimos estão exaltados, as pessoas estão nervosas, porque todos querem um bom acordo, todos querem o melhor para o povo, salvaguardando sempre o princípio da democracia. Essa é a nossa preocupação. Mas a popularidade do governo é elevada, ao contrário do que acontece com os partidos da oposição, que estão a atravessar uma grande crise.

Como está a relação como o parceiro de coligação?

É tranquila. Temos um bom nível de cooperação, mesmo não sendo um partido de esquerda, mesmo sendo um partido conservador. Mas até ao momento, e tendo em conta a conjuntura, tem corrido bastante bem.

E dentro do Syriza? Temos lido algumas notícias relacionadas com dissidências dentro do partido. O que é que está mesmo a acontecer?

A instabilidade tem a ver com o facto de parte do partido defender uma solução diferente. Há elementos que apoiam a saída da zona euro e a introdução de uma nova moeda. O problema é que o Syriza, enquanto partido, não é totalmente contra a saída do euro.

Parece que existe uma diferença entre o que as pessoas querem e o que será possível… O referendo será necessário? E quanto ao cenário de eleições antecipadas, o que se prevê?

Se não chegarmos a um acordo, devemos devolver a palavra aos cidadãos. Através de eleições ou referendo. Devemos questionar qual será o futuro do país. Se nos mantemos na zona euro, se queremos sair e seguir outro caminho. Cabe ao povo decidir. Fomos eleitos, temos um mandato que nos diz que devemos negociar e alcançar um acordo melhor do que aquele que foi alcançado por anteriores governos. Este foi o mandato. É muito claro! Se o mandato mudar, sendo nós um partido democrático só nos resta devolver a palavra ao povo e perguntar-lhes o que querem.

A escolha será entre ficar na zona euro com austeridade ou sair para terem uma política diferente?

Esta não é a questão. A questão é saber como se faz a saída. Se é uma opção bem planeada ou se é a única saída possível. Há uma grande diferença entre estas duas opções. No meu ponto de vista, a melhor opção, caso se queira sair do euro – e isso não está posto de parte – é estarmos bem preparados para o fazer. Parte dos meus colegas defendem que devemos sair já, mas não acredito que estejamos bem preparados para o fazer. Por outro lado, e de novo de acordo com as sondagens, há uma grande parte da população que quer manter-se no euro. Esta é a grande questão!

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