A verdade sobre Riga

Eurogroup meetingParecem aproximar-se momentos decisivos para uma definição da situação da Grécia. Nikos Voutsis, o Ministro do Interior cuja fotografia circulou após a vitória eleitoral do SYRIZA, anunciou num canal privado grego que não seria feito o pagamento de 1,6 mil milhões de euros ao FMI, agendado para o dia 5 de Junho, caso não houvesse um acordo com os credores, uma vez que o Estado grego não tem o dinheiro disponível para o fazer. Segundo o New York Times, uma proposta da Plataforma de Esquerda (uma corrente interna do SYRIZA) para cessar imediatamente os pagamentos aos credores foi apresentada na reunião do Comité Central realizada este fim de semana, obtendo 75 votos favoráveis contra 95 votos desfavoráveis.

Um editor da Reuters já veio explicar, num rocambolesco exercício de literatura fantástica, que a única solução viável é a capitulação política por parte de Tsipras e a convocação de eleições para obter uma maioria contra os militantes mais radicais do seu próprio partido. Ainda mais audicioso no plano da desfaçatez, Durão Barroso culpa o governo grego pela situação, considerando que este “não soube aproveitar a sua legitimidade” (sic) para negociar com a zona euro, acrescentando como bónus que “o povo grego deu instruções ao banco central e ao tribunal de contas para manipular os dados que apresentava” (sic), enquanto Ambrose Evans-Pritchard, um dos analistas que mais frequentemente escrevem sobre a crise na periferia da zona euro, descobriu no programa do Partido Socialista uma ameaça à estabilidade da zona euro comparável ao posicionamento do SYRIZA, alertando para os riscos que qualquer abalo pode provocar na “débil” recuperação económica portuguesa.

É este o contexto em que o Ministro das Finanças grego – sobre o qual o New York Times publicou esta semana uma longa peça  – resolveu colocar em pratos limpos o que aconteceu na cimeira do Eurogrupo efetuada em Riga a 24 de Abril, na sequência da qual vieram a público diversas notícias e informações sobre a sua postura, dando conta do seu descontrolo face aos alegados insultos de outros ministros das finanças. Yanis Varoufakis publicou ontem, no seu blog, o texto que abaixo se traduz.

A verdade sobre Riga

Estávamos a 24 de Abril. A reunião do Eurogrupo que decorria na Letónia assumia uma enorme importância para a Grécia. Era a última reunião do Eurogrupo antes do prazo (30 de Abril) coletivamente decidido (a 20 de Fevereiro, na reunião anterior do Eurogrupo) para chegar a um acordo relativamente ao pacote de reformas que a Grécia teria que implementar para desbloquear, em tempo útil, o impasse com os seus credores.

Durante aquela reunião, que acabou em desacordo, os órgãos de comunicação social começaram a revelar “fugas” a partir da sala da reunião, apresentando ao mundo inteiro uma versão escandalosamente falsa do que havia sido dito lá dentro. Jornalistas respeitados e veneráveis órgãos de comunicação noticiaram mentiras e sugestões tanto quanto ao que os meus colegas me teriam alegadamente dito como ao que eu lhes teria alegadamente respondido, bem como à minha exposição da posição do governo grego.

Os dias e semanas que se seguiram foram dominados por estas histórias falsas, que quase toda a gente (apesar dos meus desmentidos discretos, mas firmes) assumiu tratar-se de relatos rigorosos. O público, confrontado com esta barragem de desinformação, ficou convencido de que, durante a reunião do Eurogrupo realizada em Riga no dia 24 de Abril, os meus colegas ministros me teriam chamado nomes insultuosos (“desperdiçador de tempo”, “jogador”, “amador”, etc, foram alguns dos insultos relatados), que eu teria perdido as estribeiras e que, consequentemente, o meu primeiro-ministro ter-me-ia “removido” das negociações (foi até anunciado que eu deixaria de participar nas reuniões do Eurogrupo, ou que o faria sob a “supervisão” de outro membro do governo).

Como é evidente, nada disto é sequer remotamente verdade.

  • Os meus colegas ministros nunca, alguma vez, se dirigiram a mim em termos que não fossem colegiais, educados e respeitosos.
  • Não perdi as minhas estribeiras durante a reunião, ou em qualquer outra altura.
  • Continuo a negociar com os meus colegas Ministros das Finanças, liderando a representação grega no Eurogrupo.

Depois veio uma peça da New York Times Magazine, que levantou a possibilidade de uma gravação efetuada na reunião do Eurogrupo. Subitamente, os jornalistas e órgãos de comunicação social que haviam difundido as mentiras e sugestões sobre a reunião do Eurogrupo a 24 de Abril mudaram de azimute. Sem qualquer arremedo de pedido de desculpas pela torrente de inverdades que lançaram contra mim durante semanas, começaram então a apresentar-me como um “espião” que havia “traído” a confidencialidade do Eurogrupo.

Hoje de manhã resolvi falar sobre este assunto no programa de televisão de Andrew Marr (BBC1). Aproveito esta oportunidade para restaurar a verdade escrevendo também aqui, no meu fiável blog. Pelo que aqui vai:

Tal como informei Andrew Marr, à falta de atas, gravo frequentemente as minhas intervenções e as respostas que elas suscitam no meu telemóvel, sobretudo quando as faço de improviso. O objetivo é, naturalmente, o de poder recordar com exatidão as minhas frases e, em conformidade, dar conta delas ao meu Primeiro-Ministro, ao resto do Governo, ao Parlamento, etc., nos exatos termos em que as proferi. Foi precisamente isso que fiz na reunião do Eurogrupo em Riga e, posteriormente, já em Atenas, utilizei essa gravação para trabalhar no relatório que apresentei aos meus colegas.

Ao longo dos dias e semanas que se seguiram, permaneci firme face à torrente de mentiras que jorrou incessantemente durante semanas, como um descontrolado cano de esgoto. Renunciei a qualquer provocação e recusei-me a divulgar o que quer que fosse sobre o que afirmei na reunião – recusei mesmo tornar públicos os textos dos meus próprios discursos (quanto mais a gravação).

Aos meus detratores quero dizer o seguinte: não tiveram acesso a qualquer fuga da minha parte durante ou após qualquer uma das minhas reuniões. De facto, ninguém respeitou mais a confidencialidade dessas reuniões do que eu – mesmo durante os dias e semanas em que fui provocado pelos ataques pessoais falsos da comunicação social a propósito dessas reuniões.

Para os meus concidadãos europeus desejo acrescentar o seguinte: talvez seja altura de nos tornarmos um pouco mais céticos relativamente aos jornalismo no qual confiamos enquanto cidadãos. E talvez devêssemos questionar as instituições europeias, nas quais são tomadas decisões de monumental importância para os cidadãos europeus, mas nas quais não são redigidas nem divulgadas qualquer tipo de atas.

O secretismo e uma imprensa crédula não auguram nada de bom quanto à democracia europeia.

Varoufakis Nosferatu

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