Grécia: os problemas na saúde aumentam

(Traduzimos partes do artigo “Grèce: la catastrophe sanitaire s’aggrave”, por Eugenie Barbezat, no l´Humanité.fr)

delegation

Na foto os membros da delegação à frente de um cartaz onde se pode ler “mazi”, que significa “juntos”.

Do dia 11 de Maio a 16 de Maio, membros do colectivo “Solideriedade França Grécia pela saúde” voaram para Atenas, ao reencontro de pessoas das clínicas sociais e solidárias autogeridas. As suas observações são alarmantes.

Os hospitais estão em falência: “Nós visitámos Sotiria, um hospital histórico e de referência para os Balcãs que sofrem de doenças respiratórias e de tuberculose. Estão à beira do colapso.

Por um lado, eles são subfinanciados e têm um enorme défice de pessoal e de material (em Sotiria fecharam cinco serviços). Os casos de tuberculose aumentaram exponencialmente, a taxa de suicídio também aumentou e a maioria dos cancros já não são tratados. Reapareceram casos de malária e de raiva. Existe uma enorme sobrecarga de trabalho e em parte este excesso de trabalho acontece porque existe uma desorganização dos cuidados primários. (nas urgências, em 12h, 112 pacientes foram vistos por uma só médica). O número de paramédicos efectivos está a diminuir drasticamente, porque os que se reformam não são substituídos.

Por outro lado, uma violência inaudita é exercida sobre os pacientes. Antes da chegada do Syriza ao poder, a administração exigia por exemplo 1000€ às grávidas para realizar o parto. Se não pagassem era exercida pressão para que os familiares pagassem e se mesmo assim a dívida não fosse soldada passava-se à apreensão de bens pessoais. Famílias eram empurradas para a ruína quando, por exemplo, um dos membros da família com uma doença crónica era obrigado a ser internado. Também foram referido casos de pessoas que na consequência de saberem que tinham uma doença grave, para evitarem a sobrecarga financeira dos seus próximos, optaram pelo suicídio.”

Outro grave problema sobre o qual a delegação insiste: é uma intensa  procura psiquiátrica e psicológica por parte dos utentes, consequências directas da pobreza e da precariedade. Por razões financeiras e em resposta às exigências da Troika, muitos hospitais psiquiátricos fecharam portas nos últimos meses na Grécia, o que sobrecarregou ainda mais os hospitais e  colocou problemas de convivência entre os pacientes. “Dos oito estabelecimentos públicos de psiquiatria existentes apenas três se mantiveram em funcionamento. As estruturas extra-hospitalares e associativas foram fechando umas atrás das outras. (…) Profissionais e doentes colaboram para a sobrevivência do hospital, por exemplo através da venda de produtos agrícolas locais à entrada do hospital. Se as medidas impostas pela União Europeia forem aplicadas este hospital irá fechar em Junho. Os profissionais decidiram organizar-se custe o que custar. Num curto espaço de tempo assistisse ao desaparecimento da maioria dos hospitais públicos de psiquiatria que sofrem com as políticas impostas pela União Europeia. No meio de todas estas dificuldades os profissionais ainda presentes, esforçam-se em manter cuidados diversificados e de qualidade.”

Face à falência do sistema de saúde, hoje, uns cinquenta centros de solidariedade social foram criados devido à crise e funcionam por toda a Grécia, graças à acção e ao trabalho de voluntários. Médicos, dentistas, farmacêuticos, psicólogos e administrativos trabalham com o apoio activo dos cidadãos que colaboram com estas estruturas.

“Os testemunhos dos voluntários destes centros mostram a importância da acção colectiva pelo direito à saúde, pela dignidade de cada um e cada uma. Nós também observámos que uma grande maioria destes centros investiam igualmente em outras acções solidárias determinantes para a saúde (alimentação, habitação, vestuário, cultura, educação, …)”, afirmaram os franceses chegados a Atenas. “Também constatamos que os pedidos de solidariedade não acabavam na fronteira: a ajuda aos combatentes curdos do Curdistão para o envio de material médico, bem como ajuda para a obtenção de papéis para os emigrantes”, uma bela lição de solidariedade para a Europa já que os membros mais ricos querem construir uma fortaleza.

Reencontro com o ministro da saúde (Syriza)

A delegação foi igualmente recebida pelo ministro da saúde grego,  Panayotis Kouroublis e por Andreas Xanthos. Nesta ocasião Andreas Xanthos, o co-fundador do primeiro centro de saúde social em Crête Rethymnon em 2008, ele próprio médico hospitalar e actualmente vice-ministro da saúde, desde logo fez parte deste movimento de inquietação face à situação gravíssima da saúde, pouco valorizada até 2012 pelas autoridades do poder. Xanthos considera que as práticas dos centros permitiram medir a dimensão da catástrofe na saúde e o Syriza já tomou algumas medidas de urgência como o restabelecimento e extensão da cobertura médica, a supressão da taxa hospitalar de 5€, o acesso aos cuidados primários gratuitos independentemente da nacionalidade, rendimento ou posição social. Mas a restauração do sistema de saúde levará algum tempo, enquanto as instituições europeias tentarem bloquear todas estas reformas sociais em beneficio de um reembolso rápido da “dívida” grega. “O tempo é uma questão fundamental”, afirmou Andreas Xanthos, que repugna o cinismo de Bruxelas face ao perigo mortal que milhares de crianças e velhos gregos enfrentam por culpa dos cuidados adaptados.

É altura de criar uma relação de forças europeias sobre a questão dos medicamentos face à potência das indústrias farmacêuticas multinacionais. Particularmente nas questões mais importantes como o controlo dos preços, da produção, da patente, da comercialização e do quadro jurídico.

Além do sector da saúde é necessário sublinhar a importância da convergência de lutas contra a austeridade, que se formam em cada país da Europa, essenciais para o governo grego e para a democracia europeia.

“Todos os povos da Europa estão preocupados. A Grécia é um teste para a Europa liberal. As manifestações de apoio que ocorrem por todo o lado, a união numa luta orientada e solidária contra a austeridade ditada pelas políticas que actuam contra os interesses dos povos é incontornável…”, conclui Danièle Montel.

O artigo pode ser lido na íntegra, em francês aqui

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