O Guião que o Syriza não Está a Seguir

Traduzimos na íntegra o post de Paul Mason de 21 de Maio acerca das expetativas dos credores sobre uma eventual capitulação grega, e a forma como o governo e o povo grego se estão a preparar para gorá-las.

O documento do FMI divulgado pelo Channel 4 News na semana passada dá um prazo efetivo de três semanas para por fim ao impasse relativo à dívida grega. O FMI considera que «não existe qualquer possibilidade» de a Grécia cumprir com o pagamento de 11 mil milhões de euros devidos entre junho e o final de agosto — o governo grego está a ficar sem dinheiro.

Yanis Varoufakis, o ministro das finanças, disse ao Channel 4 News (ver vídeo, em inglês, abaixo) que, se tiver de escolher entre pagar ao FMI os 350 milhões de euros que vencem a 5 de junho e pagar pensões e salários, escolhe os últimos.

Em privado, mesmo os setores do partido de extrema-esquerda no governo que estavam mais confiantes na obtenção de um compromisso com os credores confessam-se alarmados. Os planos de saída do euro elaborados pela ala esquerda do partido começaram a ser seriamente estudados por aqueles que, no passado, se recusaram a dar-lhes importância; e o jornal diário do partido, o Avgi, tem publicado artigos em que o incumprimento da dívida é contemplado.

No guião previsto pela zona euro, o fim esperado é só um: o Syriza divide-se, e o ministro das finanças Varoufakis cumpre a promessa de não assinar uma rendição, demitindo-se. Daí resultaria um governo de centro-esquerda, com Alexis Tspiras  alinhado com o partido do centro Potami, e com o apoio tácito da ala liberal do partido da Nova Democracia. Haveria uma redução da dívida, mas nos termos ditados pelos credores, e o Syriza sobreviveria, mas para completar a sua transformação num partido social democrata, de centro esquerda.

O Guião não É para Seguir

Não obstante, há quem não esteja disposto a seguir esse guião.

Zoe Konstantopoulou, a advogada de 39 anos, formada na Sorbonne, e atualmente presidente do parlamento grego, é uma delas. A deputada do Syriza usou o cargo que ocupa para lançar três processos legislativos que podem, mesmo nesta altura do campeonato, dar ao governo de esquerda radical um trunfo sobre os credores: uma comissão para a «verdade da dívida», outra para avaliar o direito a exigir indemnizações de guerra à Alemanha, e uma série de casos judiciais de corrupção de alto nível em torno de contratos entre o setor público grego e empresas alemãs.

A Europa assumiu que estas iniciativas não passavam de retórica, permitindo ao Syriza construir uma narrativa enquanto governo, e nada mais. Mas, neste momento, pelo que sei, o comité para a verdade da dívida identificou uma tranche da dívida grega que parece — de acordo com quem viu as provas — «inconstitucional». Zoe Konstantopolou disse-me que «existem fortes indícios de que grande parte da alegada dívida grega é ilegítima, odiosa e insustentával.» E deixa o aviso aos credores: o povo grego tem direito a «exigir a anulação da parte que não deve.» «Dependendo do resultado da auditoria, não é ético da parte dos credores exigir mais pagamentos, ao mesmo tempo que recusam avançar com verbas e exercem uma pressão exorbitante para implementar políticas que vão contra o mandato popular», acrescentou.

Processos Judiciais

Se for parlamento grego — e não o governo — a desencadear os processos legais, exigindo não só anulação de partes da dívida e reparações de guerra, mas também mandatando claramente o governo grego para cancelar, unilateralmente, uma parte da dívida, isso significaria que o assunto sairia das mãos dos ministros do Syriza. «Pedir a abolição da parte insustentável da dívida e exigir reparações não é apenas um direito», disse-me Zoe Konstantopolou: é uma obrigação legal.

Embora não seja muito conhecida no mundo anglófano, militantes e deputados do Syriza indicam Konstatopolou como uma potencial líder na oposição ao acordo que se avizinha. No último mês, a presidente do parlamento grego viajou por várias capitais europeias para apresentar os argumentos da Grécia, e ainda esteve ao lado de Vladimir Putin na parada de 8 de Maio.

Ontem [20 de Maio], quando os pensionistas foram impedidos de aproximar-se do parlamento pela polícia de choque, Zoe Konstantopolou saiu disparada do gabinete para confrontar o comandante da polícia, ao vivo para as câmaras da televisão. Não é preciso saber grego para captar o essencial:

A imprensa grega não deixou passar o simbolismo (ver ilustração mais abaixo).

Os credores, tal como o setor político de centro-direita, calcularam — corretamente, até agora — que a classe média baixa grega está tão apegada ao euro que qualquer governo do Syriza que a colocasse em risco a manutenção da moeda enfrentaria uma revolta popular.

Mas, no terreno, as coisas estão a mudar. Os três meses que passaram desde que Varoufakis assinou o que pensou ser um acordo que poderia desbloquear o sistema bancário grego congelado têm sido desgastantes para toda a gente. E já foram retirados do sistema bancário mais de 35 mil milhões de euros.

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Embora sondagens recentes indiquem que a maioria é a favor da permanência no euro, 70 por cento defende que tal não pode depender de cedências nas chamadas questões de «linha vermelha», nomeadamente as pensões, os direitos sindicais e a readmissão dos trabalhadores dispensados. Os defensores de «ficar a todo o custo» já são apenas 52 por cento.

Esta semana, a ala esquerda mais radical do Syriza divulgou publicamente um plano de saída «negociada» do euro, pela mão do professor universitário e deputado do Syriza Costas Lapavitsas. E nas semanas que se seguiram à cimeira de Riga, a maior parte dos militantes do partido, e muitos dos seus jornalistas mais influentes, começaram a debater seriamente as vantagens do incumprimento e de uma estratégia de saída.

Os responsáveis europeus que tentam chegar a um acordo de última hora já não têm de preocupar-se apenas com a teimosia da Alemanha e aliados no BCE. Têm também de ter em conta a ameaça de uma revolta alargada no seio do Syriza e as ações do comité para a verdade da dívida — ambos podem criar sérios obstáculos a qualquer entendimento.

O original pode ser lido aqui.

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