E se o BCE comprar a dívida grega para a perdoar?

stockhammer

Esta semana entrevistei o economista Engelbert Stockhammer para a Antena 1. Fica aqui a transcrição e aqui o link para o áudio (a partir dos 25 minutos).

Stockhammer publicou um estudo onde defende a recuperação da economia pelos salários. Sugere um choque de consumo na Europa… através de um aumento salarial entre os 4,5% e os 5% por ano. Professor na Universidade de Kingston, no Reino Unido, e um dos economistas heterodoxos mais ouvidos, Stockhammer propõe ainda uma solução para a Grécia: o Banco Central Europeu pode comprar a dívida e simplesmente apagar o crédito do balanço.

Professor, no seu estudo mais recente defende uma recuperação económica assente nos salários. Após a contenção orçamental, há agora margem para os salários subirem? 

Sim, acho que os salários devem subir a um ritmo saudável. Numa recessão é importante que a maioria das famílias tenha rendimentos suficientes… A maior fonte de rendimento das famílias são os salários, logo, a única maneira de aumentar o consumo passa por aumentar os salários.

Mas isso não seria repetir os erros que algumas economias cometeram antes da crise, quando os salários estavam muito altos, como defendem alguns economistas? 

Não partilho essa análise. Os países que tiveram problemas na balança corrente, nomeadamente os países do sul que importavam muito mais do que exportavam… tinham esses problemas porque estavam a crescer rápido. Muitos deles, especialmente Espanha e Irlanda, mas também Portugal, cresceram devido à liberalização financeira e ao aumento rápido no preço do imobiliário e do endividamento das famílias. As subidas salariais refletiram esta dinâmica financeira e por isso não vejo os grandes aumentos salariais como o principal problema da Europa.

Então, que salários devem subir primeiro?

Os salários mais baixos. Os salários deviam subir em todas as categorias, acompanhando o aumento da produtividade, cerca de 2 ou 2,5% por ano, e a meta da inflação, cerca de 2% a mais… ou seja, acho que os salários deviam subir perto de 4,5% a 5% ao ano.

Mas se a inflação estiver ao nível atual, 0% ou 0,5%, teríamos uma subida anual dos salários de 2,5%, certo? 

Exato.

Professor, mas há alguns economistas que dizem que, se os produtos forem mais baratos, então vendemos mais a outros países. Então, se os salários forem baixos, isso torna os produtos mais baratos… logo, vendemos mais. Isto não faz sentido para si? 

Não, a tese está correta, mas não diz que os salários altos vão levar a mais crescimento. Apenas diz que salários baixos levam a mais exportações líquidas, ou seja, vamos exportar mais do que importar. Mas há uma grande diferença entre dizer que vamos exportar mais e vamos crescer mais. Porque o mesmo corte salarial que vai aumentar as exportações terá um impacto muito negativo na procura interna. E a verdadeira questão é se os ganhos com o efeito nas exportações compensam o efeito no consumo interno.

Alguns responsáveis europeus dizem que todos os outros países deviam seguir esta estratégia, mesmo que não seja concertada. 

Acho que é uma recomendação muito perigosa… ilustra aquilo a que nós economistas chamamos uma falácia da composição do problema do dilema do prisioneiro. O importante é que cada país isoladamente pode seguir essa estratégia de crescimento. Cada país pode tentar exportar a sua forma da crise… mas nem todos podem fazer o mesmo porque para uma país registar uma melhoria da balança de transações então outro país tem de sair a perder. Logo, nem todos os países podem crescer pelas exportações.

Se é impossível desvalorizar o euro… uma das únicas maneiras de ser mais competitivo passa por baixar os salários…. Qual é a alternativa? 

Mas o problema da Europa não é a falta de competitividade. Os países europeus já exportam em termos líquidos… ou seja, já exportam mais do que importam cerca de 4% do PIB. Por outras palavras, se consumíssemos o excedente, todos seríamos 4% mais ricos. Por isso, o problema da Europa não é que exporta muito pouco, mas, sim, que a procura doméstica está a afrouxar. A Europa deve criar a procura na sua própria área… não procurar fora a sua salvação.

Professor, os dois maiores partidos portugueses, PSD e PS, ambos propõem baixar a contribuição das empresas para o sistema de segurança social. Dizem que os custos salariais devem baixar… acha que esta estratégia está errada? 

Sim, acho que essa estratégia está errada. Essa estratégia defende que temos problemas económicos porque os salários estão muito altos. Mas a origem da crise não está nos salários, mas, sim, na excessiva liberalização financeira que causou um enorme aumento do crédito e, em particular, da dívida das famílias, que tem crescido rapidamente nos países do Sul europeu.

Mas o que dizem é que as pessoas não têm dinheiro para gastar porque o desemprego está muito alto. Para a criação de emprego defendem baixar os impostos sobre os lucros das empresas. Esperam assim que, se as empresas tem lucros e se os impostos sobre os mesmos são baixos, isso irá atrair mais empresas, criar mais empregos e aumentar o consumo. 

O problema atual para as empresas não é o valor dos salários… o problema das empresas é a falta de procura. O que o governo devia procurar fazer é aumentar a procura agregada e não baixar os custos salariais. Os custos salariais são custos para as empresas, mas, ao mesmo tempo, são a principal fonte de rendimento das famílias. Quando se cortam salários, corta-se o consumo e a recuperação não começa. O que precisamos é de um aumento exógeno da procura agregada e isso tem de ser feito através do investimento público.

Gostaria igualmente de lhe fazer a pergunta de um milhão de euros… qual a solução para o problema grego? 

Os credores europeus devem aceitar que a divida grega não será paga e acordar numa reestruturação deveras substancial. Logo, há, essencialmente, duas maneiras de o fazer: ou a maneira dura, que consiste num corte no nível da divida, o que cria buracos nas contas de todo o tipo de instituições financeiras… ou há uma maneira mais suave…no fundo, o Banco Central Europeu deve comprar esta dívida e absorver a dívida através da emissão de nova moeda.

O que está a defender, para ver se percebi, é que devíamos adicionar ao programa de compra de ativos a possibilidade de o BCE financiar os Estados…

Em ultima análise, é isso que estou a sugerir…  se quisermos evitar o risco moral, se quisermos evitar os incentivos errados para os Governos, podemos dizer que o BCE deve comprar a dívida dos Governos no valor que cresceu entre 2008 a 2013. Foi um endividamento causado pela crise financeira e pela deflação da dívida que se seguiu… pode absorver-se a dívida sem criar muitos problemas de risco moral.

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