Preparar a saída do euro

Se houvesse dúvidas sobre a possibilidade de países da zona euro divergirem das chamadas “políticas de austeridade” a experiência grega mostra-nos que isso é uma mentira. Mais, estes primeiro meses do novo governo demonstram-nos que a decisão soberana do povo grego só irrita mais quem manda na zona euro.
Parece evidente que só restam duas opções ao governo grego: dobrar a espinha ou defender a saída do euro.
Creio que a maioria dos leitores estará de acordo que este governo não tem condições políticas para decidir a saída do euro depois de ter feito a sua campanha a declarar fidelidade à moeda. O apoio popular, nacional e internacional, é fundamental para que a decisão de reconstrução do país se inicie. Por outro lado, se as sondagens no decorrer da campanha eleitoral indicavam uma maioria de 85% a favor da manutenção da Grécia na zona euro a 19 de Março, a AlphaTV, apresentava um estudo de opinião em que esse valor já andaria pelos 61,2% e em Abril nos 65,1%.

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Num cenário em que o próprio Syriza assuma a impossibilidade de cumprir o programa político para o qual foi eleito e passe a defender a saída é de esperar que isso também tenha uma influência na apreciação popular.
De qualquer forma o referendo é um risco. A saída do euro pode não ser aprovada e o governo fica com um programa político impossível de aplicar no cerco da zona euro. Neste sentido, as declarações do ministro das finanças alemão incentivando a Grécia a fazer o referendo não devem ser motivo de espanto. Schäuble sabe que o apoio ao euro tenderá a diminuir à medida que o cerco anti-democrático apertar ainda mais e que uma eventual decisão popular de manutenção na zona euro arrasa o governo grego. Por outro lado, a zona euro já trabalha num cenário provável de saída da Grécia e, sobretudo a Alemanha e as suas empresas, têm cada vez menos exposição à dívida grega. Merkel, e os seus capatazes em vários governos da Europa, trabalham agora para que uma eventual saída da Grécia seja vista como uma desgraça e um exemplar castigo para qualquer outro governo que se arrogue a invocar a legitimidade popular para questionar as suas políticas.
Na verdade, o que é verdadeiramente decisivo em todo este processo é a forma como o governo grego estará a preparar a possível saída do euro. A “feliz surpresa” com que Tsipras caracterizou o convite da Rússia para que a Grécia adira ao Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) fomentado pelos BRICS é um sinal importante de um apoio internacional que tardava em concretizar-se.
O futuro dos gregos não se prevê risonho mas fazer prevalecer a decisão popular é um bom princípio para recuperar a soberania, a democracia e a dignidade.

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