Europeus porque gregos

Vassilis Alexakis é um escritor natural de Atenas com alguns prémios de prestígio no currículo, como o Médicis e o da Academia Francesa para o romance. Depois de ter vivido em Paris o movimento de Maio de 68, ficou por França quando a «ditadura dos coronéis» o forçou ao exílio. Acabou por obter a dupla nacionalidade, conservando no entanto uma forte ligação física e cultural ao país onde nascera em 1943. Vassilis tem, aliás, a particularidade de escrever os seus romances em francês e depois de ser ele próprio a vertê-los para o grego, o que parece configurar a forma perfeita de tradução, quando o momento da criação se desdobra em duas línguas sem o recurso a um intermediário espúrio. La clarinette, editado em Fevereiro, é o seu último livro.

Em entrevista recente ao L’Express, Alexakis sintetizou de forma convincente três mil anos de história grega. Ouçamo-lo: «A Grécia, berço da democracia, permaneceu sempre fora do processo de formação dos Estados europeus, passou ao lado do Renascimento e ignorou o século das Luzes. Foi este o seu drama e o seu paradoxo. Depois saiu da ocupação otomana como se nada tivesse mudado. O Estado permanece como o inimigo, toda a gente procura enganá-lo, só a organização familiar conta. Quanto à riquíssima Igreja, cujo poder espiritual é tão forte quanto o seu poder material, permanece intocável; contestá-la equivale a renegar a pátria e pode mesmo levar quem o faz à barra dos tribunais.»

Uma generalização desta natureza é, obviamente, sempre redutora. Mas toca um aspeto central para a perceção da forma como, desde a entrada na CEE em 1981, boa parte dos gregos viu a Europa e a sua artificial unidade. Sempre como algo ao mesmo tempo próximo e distante, associado a um projeto apresentado como inelutável mas que, de facto, poucos experimentaram como seu. O erro, aliás, repercutiu-se até hoje à escala continental: a integração dos Estados que foram sendo associados ao núcleo inicial definido no Tratado de Roma foi imposta de cima para baixo, sem o envolvimento real dos cidadãos, construída em nome de um projeto radicado numa tradição que poucos partilhavam e a maioria dos europeus não compreendia. Jamais foi o resultado de uma efetiva comunhão de interesses, capaz de integrar uma diversidade real, mantendo-se alheia à comunidade una e coesa imaginada um dia por Jean Monet.

Olhada sob este prisma, a resolução do «problema grego» não passa apenas pelo gradual superação das condições criadas pelo acumular da sua dívida pública, mas também pelo reconhecimento do direito do povo da Grécia a gerir o seu presente e o seu futuro, não em termos de conformação a um modelo e a um calendário impostos, mas na associação do processo de recuperação económica e social, e dos compromissos internacionais mais essenciais, com uma identidade política e cultural que jamais fará dele aquilo que nunca foi. O problema é aliás transversal: a construção de uma efetiva unidade europeia começará sempre pelo respeito para com a diversidade e o percurso histórico percorrido por cada um dos seus Estados-membros e também, dentro destes, pelo direito das diferentes gerações ao seu passado e ao seu futuro, retirando-as da condição sonâmbula, da existência entre parêntesis, na qual parecem vegetar.

No caso da Grécia, a aceitação dessa identidade é decisiva para que o cidadão comum se envolva no movimento de redenção nacional que parece encontrar-se agora em marcha. Como projeto adotado, partilhado, e não apenas aceite como uma inevitabilidade. A propósito da situação atual, sublinha ainda Alexakis para reforçar a incompreensão que continua a ser vivida no dia-a-dia: «Reunidas sob um mesmo teto, as gerações entraram em conflito. Este é um novo drama, pois jamais as pessoas se sentiram tão sós.» O alívio deste fardo passará sempre pelo reconhecimento político do direito à singularidade histórica e às escolhas democráticas, como passo decisivo para a redenção nacional e para uma verdadeira convivialidade europeia. Europeus porque gregos, e não o contrário.

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