O respeitável populismo institucional

Entre as várias coisas desagradáveis que a crise na zona euro trouxe ao de cima, a banalização do discurso nacionalista suave é porventura a que mais impacto assume ao nível do espaço público e do debate político. Tornou-se de tal forma frequente ler que «a Grécia» fez isto e «a Alemanha» fez aquilo que qualquer esforço para deslocar a discussão para lá dessas categorias se depara com incontáveis obstáculos. A isso soma-se uma crescente tendência para a desinformação por parte do discurso jornalístico e governamental, até às instituições europeias propriamente ditas.

Não se trata apenas de constatar que a imprensa tablóide reduz tudo à mais populista e primária expressão, como não cessam de o demonstrar jornais como o Bild, onde uma ida de Varoufakis à praia (foi de ferry a uma ilha situada a 1 hora de Atenas) é utilizada para demonstrar que os gregos não trabalham aos fins de semana, apesar de tudo aquilo que se sabe sobre a sua dívida pública. Comprado por 2,2 milhões de pessoas, o jornal tem uma obsessão ligeiramente perturbadora com o Ministro das Finanças gregas e a respectiva sexualidade, que não se explica apenas pela  disponibilidade deste para se fazer fotografar em casa por uma revista de temas mundanos. Este tipo de jornalismo de buraco de fechadura, para recorrer a uma expressão célebre, parece apostado em fazer da vida quotidiana dos gregos – por via de uma sinédoque que a resume à vida privada do seu ministro das finanças – um elemento explicativo da situação financeira do respectivo Estado. Os sucessos de semelhantes incursões literárias estão à vista.

Varoufakis aegina

Contribuindo de forma decisiva para que o mais puro chauvinismo faça as vezes de jornalismo, o discurso oficial das instituições europeias e de diversos governos, a começar pelo alemão mas certamente não se resumindo a ele, não se cansam de popularizar a ideia de que os propósitos do governo grego são um conjunto de exigências extravagantes, pagas pelos contribuintes dos respectivos países de maneira a poupar os ardilosos gregos (timeo danaos et dona ferentis) aos rigores de uma austeridade merecida.

É bem verdade que desde 2010 se utiliza a palavra «ajuda» para descrever aquilo que é efectiva e incontornavelmente um empréstimo, por sinal com juros bastante superiores à taxa de inflação na zona euro. Basta digitar num qualquer motor de busca a expressão «ajuda à Grécia» para constatar a dimensão deste logro e a ligeireza acrítica com que ele se reproduz no senso comum. Como nos diz Wolfgang Storz, os efeitos deste tipo de simplificação são sucessivamente multiplicados até se tornar quase  impossível contrariar, por via de uma argumentação metódica e paciente, a imagem de um país inteiro habitado por ociosos irresponsáveis:

“O Bild não fala simplesmente dos ‘gregos falidos” (pleite-griechen), prossegue Wolfgang Storz, mas “repete essa expressão em todos os seus artigos para que num café, entre amigos, quando alguém se refere à Grécia, haja mais uma pessoa a repeti-la. Esta é a sua força”, conclui.

E é escusado insistir na ideia de que o «Eurogrupo» e outras instituições estão a brincar com o fogo e a convocar fantasmas que dificilmente conseguirão esconjurar, porque é precisamente um cenário maniqueísta que se pretende desenhar, encostando tudo e todas à parede para nos obrigar a escolher entre Marine Le Pen e Sarkozy, Lutz Bachmann e Angela Merkel, a Aurora Dourada e a Nova Democracia, Farage  e Cameron. Não sendo fácil perceber se acreditam na sua própria retórica ou se limitam a fazer dela uma barragem contra qualquer discussão séria, os actuais donos da Europa alimentam a fogueira da demagogia para dessa forma se colocarem a si próprios num «centro» puramente ficcional, onde residiria a respeitabilidade institucional. O populismo não é uma consequência da crise da Zona Euro, mas um dos seus mais sólidos alicerces. O que não diz grande coisa da arquitectura geral da coisa, mas a isso regressaremos num futuro próximo.

[Enquanto escrevia estas linhas foi divulgado o comunicado do Eurogrupo relativamente à reunião de hoje, que consegue a admirável proeza de não dizer absolutamente nada]

Bild nein

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