Os gregos estragam histórias fáceis

Alexis Tsipras, Yanis Varoufakis

Se a simplificação é da natureza da mediatização da política, quando a comunicação social trata de países que nos são distantes facilmente apagam-se quase todos os dilemas e contradições com que os atores políticos têm de lidar. E a situação política na Grécia tem sido retratada sem dar grande atenção aos contraditórios e nem sempre conciliáveis sentimentos populares.

Quem, na Europa, espera que a Grécia se transforme numa vacina para países onde movimentos políticos excêntricos ao sistema ganham força eleitoral (o Podemos, em Espanha, por exemplo), tem já escrita a conclusão de uma história que vai variando: o governo grego está em perda eleitoral e acabará por mostrar que quem promete uma alternativa está condenado à derrota. Primeiro, o governo tinha frustrado aqueles que depositaram em si esperanças vãs, numa fé que apenas o desespero poderia explicar. O Syriza, obrigado a um inevitável realismo, estaria a trair as suas promessas e a frustrar o seu povo. Agora diz-se que o Syriza é pouco realista, está a entrar em rutura com a Europa e afasta-se do mesmíssimo eleitorado. Como este tipo de simplificações precisa sempre de um vilão, os maus fígados de Yanis Varoufakis, e não a complexa situação da Grécia, os becos sem saída em que a Europa se foi enfiando e as exigências europeias sem qualquer relação com a dívida grega, explicariam o impasse em que a negociação se encontra.

Do lado inverso, imagina-se que o povo grego se prepara para desembainhar a espada pela dignidade nacional. E que o governo de Tsipras estará condenado a perder a sua base social de apoio se claudicar ou ceder à Europa. Devo dizer que não faço a menor ideia do que sucederá. As possibilidades de um referendo a um acordo mais difícil de engolir pelo Siryza ou da marcação de eleições antecipadas são reais. Mas, nesta Europa, desisti de fazer previsões.

Segundo uma sondagem tornada pública pelo canal televisivo Mega, depois da entrevista televisiva de Alexis Tsipras, 62% dos gregos opõem-se a um referendo e 72% a novas eleições, caso as negociações falhem. Segundo outra sondagem do canal Alpha, 46,4% defendem, neste caso, um governo de unidade nacional. 78% querem mesmo um acordo de compromisso com os credores (o canal Alpha fala de 65%). Apesar de 49,4% dos gregos acreditarem que o risco da Grécia sair do euro é real, 75,6% acham que o país se deve manter no euro a todo o custo (65,4%, segundo o canal Alpha).

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Concluímos então que o espaço de manobra política de Tsipras é pequeno? Não diria tanto. 58,3% dos gregos concordam com a estratégia negocial que Tsipras tem usado (50,5%, diz o Alpha) e a sua popularidade estava, no início de abril, nuns impressionantes 78%. As duas sondagens dão, ao Syriza, 36,5% e 35,6%. Abaixo dos muito mais de 40% que chegou a ter noutras sondagens, em finais de fevereiro, mas muito próximo dos 36,3% que conquistou nas eleições. Na realidade, a descida da Nova Democracia (que aparece com 22% e 21%, quando nas eleições teve uns já humilhantes 28%) é a única oscilação relevante. Tudo o resto está, eleitoralmente, na mesma.

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Todos nos temos concentrado nas variáveis económicas e financeiras que condicionam esta negociação. Elas são fundamentais. Mas há a política. E as únicas condicionantes políticas que têm sido sublinhadas correspondem ou às resistências dos eleitorados do norte da Europa a qualquer cedência à Grécia ou à reação de uma minoria dentro do Syriza que poderia, a qualquer momento, despoletar uma crise política. Vale por isso a pena tentar perceber do sentimento da maioria dos gregos. E o que parece, olhando apenas para os números – que podem sempre ser enganadores –, é que continuam a confiar no governo que elegeram, que não encontram a ele qualquer alternativa, que compreendem a enorme dificuldade negocial que o país tem pela frente e que não defendem uma postura de rutura, sobretudo uma saída do euro. Não sei se é isto é bom ou é mau. Mas é o que é e não permite grande parte dos retratos políticos extremados que vão sendo feitos.

Não sei, talvez não saiba ninguém, se, perante algumas das impossibilidades que a Europa exige, Alexis Tsipras poderá corresponder a esta aparente vontade popular de moderação e se, no sentido inverso, mais cedências aos credores para não entrar em rutura não acabarão com o seu estado de graça. Mas é importante saber, ache o que se achar, que nem sempre os povos desejam o que outros desejam que eles desejem. Nem é verdade que o governo grego esteja em processo de desgaste político, nem os gregos parecem estar, por agora, disponíveis para partir a loiça. As coisas estão, como costuma acontecer nestes casos, algures no meio. Talvez as previsões que se façam devam ter isto em conta.

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