Afastar Varoufakis não resolve o verdadeiro problema grego

Por John Cassidy no The New Yorker.

 

A notícia de que o controverso ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, teria sido afastado das negociações com os credores do país, dando lugar a uma equipa liderada pelo ministro-adjunto dos Negócios Estrangeiros Euclid Tsakalotos, agradou evidentemente aos mercados financeiros europeus: na segunda e terça-feira, a cotações das acções subiram e as taxas dos títulos de divida Grega caíram abruptamente. Com o desbocado economista da teoria de jogos fora das negociações, os investidores acreditam que será mais fácil os dois lados chegarem a um acordo que evite a falência do governo de Atenas e a sua saída da Eurozona.

A curto prazo, a jogada poderá ajudar. O governo grego está virtualmente sem dinheiro, e as relações entre Varoufakis e os seus congéneres europeus tinha-se deteriorado de tal forma que a sua presença nas negociações constituía uma barreira ao acordo para a libertação dos 7.2 mil milhões de Euros em novos empréstimos, prometidos pela União Europeia em Fevereiro e dependentes de um acordo acerca do programa de reformas grego. Pôr Varoufakis à margem – este permanece como ministro das finanças e continuará a orientar as negociações – pode bem ter facilitado os compromissos de ambos os lados.

Na sua longa entrevista televisiva da terça-feira à noite, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras mostrou-se confiante na obtenção de um acordo até 9 de maio, alguns dias antes do prazo de um avultado pagamento da Grécia ao Fundo Monetário Internacional. “Apesar das dificuldades, as possibilidades de ganhar as negociações são elevadas”, disse. “Não devemos dar lugar ao pânico”. Tsipras também afastou a hipótese de eleições antecipadas, uma opção que tem vindo à baila recentemente. No entanto levantou a hipótese de um referendo, caso a Grécia seja forçada a aceitar termos que estejam fora do mandato anti-austeritário do Syriza.

Partindo do princípio de que nenhum lado quer sair da Eurozona, tenho argumentado que um acordo será alcançado no último minuto. Relatos de Atenas sugerem que este consistirá na submissão de legislação por parte do governo do Syriza que implemente algumas das reformas pretendidas pela União Europeia, tais como a introdução de um imposto de valor acrescentado uniforme e a privatização de bens públicos, como portos e aeroportos. Em contrapartida, a U.E. poderá deixar cair, para já, algumas das outras exigências quem tem vindo a fazer, incluindo as alterações ao sistema de pensões grego e às leis do trabalho.

 

Mas essas questões não irão desaparecer, tal como não irá a crise financeira grega. Nesta fase, na verdade, a longa disputa sobre os 7.2 mil milhões de Euros começa a parecer um teatro. Chegando a Junho, os dois lados terão de chegar separadamente a um acordo de reestruturação, ou re-financiamento, das dívidas do governo grego, que contabilizam cerca de 175% do produto interno bruto do país. Tendo em conta o que vimos nos últimos meses, as hipóteses de essas negociações serem bem sucedidas são escassas.

O que é necessário, e a maior parte dos analistas objectivos concorda, é um grande corte na dívida grega e uma nova política que restabeleça o crescimento económico: é assim que a maior parte das crises de dívida soberana são resolvidas. No entanto neste caso, o regate de 2010, revisto em 2012, não impôs quaisquer cortes aos credores da Grécia, que eram, principalmente, grandes instituições financeiras. Concebido pela troika – a U.E., o F.M.I. e o Banco Central Europeu – o programa “consistia em proteger os bancos alemães, e especialmente os franceses, de cortes nas dívidas.” (Isto não foi dito por Varoufakis, mas por Karl Otto Pöhl, um antigo presidente do banco central alemão.) Além de sobrecarregar a Grécia com uma dívida insustentável, a troika obrigou o governo de Atenas a cortar na despesa e diminuir consideravelmente o seu défice orçamental. Nesses pontos, o programa foi bem sucedido, mas com enormes custos para o resto da economia grega. Entre 2010 e 2014, o PIB caiu cerca de 20%, a taxa de desemprego subiu para mais de 25%. O programa de resgate provocou uma depressão na Grécia.

Para quem segue de perto a Grécia, a história soa familiar, mas vale a pena repetir. Desde que tomou posse como ministro das finanças, Varoufakis tem por vezes embarcado em ilusões, recusas e auto-dramatização. (No domingo, citou no twitter um discurso de 1936 de Franklin Delano Roosevelt, descrevendo os seus inimigos políticos como sendo “unânimes no seu ódio por mim; e eu dou as boas-vindas ao seu ódio.” Varoufakis acrescentou: “Uma citação próxima do meu coração (e realidade) nestes dias.”) Mas os argumentos de Varoufakis sobre a condição grega, e sobre os danos das políticas de austeridade que acompanharam os programas de 2010 e 2012, são incontestáveis.

Infelizmente, não há ainda sinal de que os líderes da U.E. estejam dispostos a reconhecer estas verdades, um problema que Athanasios Orphanides, um economista do M.I.T. que em tempos foi governador do Banco Central do Chipre, deixou bem claro no início do ano. Porque são os europeus tão obstinados? Não se trata apenas de uma análise económica errada, apesar de ser também um pouco isso. O principal problema é politico. Tendo forçado os outros países que receberam regastes – Irlanda, Portugal, Chipre – a engolir o comprimido da austeridade, o establishment europeu (e muitos dos seus governos) é avesso a fazer algo que pareça dar à Grécia, e particularmente ao Syriza, uma saída. Uma forma de contornar este obstáculo pode consistir na adopção de uma política europeia abrangente desenhada para reduzir as dívidas, tais como a re-compra de dívida proposta num novo relatório do Centro para o Progresso Económico em Londres. Mas em vez de se orientarem neste sentido, os decisores em Bruxelas e Frankfurt assumem ainda que a Grécia será eventualmente capaz de pagar todos os seus créditos.

Se este impasse continuar, então, independentemente do que aconteça nas próximas semanas, torna-se provavelmente apenas uma questão de tempo até que a Grécia falhe algumas das suas obrigações. Nesse caso, a escolha seria entre declarar bancarrota e criar uma nova moeda, ou tentar a bancarrota sem sair da Eurozona. A primeira opção implicaria uma grande dor no curto-prazo – limites nos levantamentos bancários, controlo dos fluxos de capitais e, possivelmente, um pico de inflação. No longo-prazo, no entanto, poderia permitir que a Grécia usasse a desvalorização da moeda para sair da recessão e escapar da armadilha da dívida. A segunda opção seria complicada. Numa nova publicação do portal do Centro de Investigação de Política Económica, Charles Wyplosz, um dos mais importantes economistas europeus, salienta que muito dependeria da acção do Banco Central Europeu. Se não concordasse, antes do default, em continuar a ser o credor de último recurso, haveria uma corrida aos bancos na Grécia e, muito provavelmente, um colapso financeiro generalizado.

Se parece desolador, é porque é. A Grécia está numa situação terrível. E pôr de lado um cliente incómodo não mudou isso.

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