Fuga de depósitos e banqueiros anarquistas

Varoufakis e a mulher foram atacados num restaurante por militantes (alegadamente) anarquistas. Diz o jornal The telegraph, no seu site, que o ataque se ficou a dever à situação descrita no gráfico abaixo (ver o gráfico da notícia, em que os números são mais claros).

Depósitos bancários Grécia

O Telegraph não fornece nenhum dado ou razão para pensar que os agressores fossem, de facto, anarquistas preocupados com a fuga de depósitos. No entanto, o mais importante na notícia são os dados citados no gráfico com base no Banco da Grécia e na Bloomberg, que permitem traçar a história da fuga de depósitos desde 2010, ano em que se iniciou a intervenção da Troika. Nesse primeiro momento, saíram da Grécia cerca de 87 mil milhões de euros. Seguiu-se um período de recuperação após a reestruturação da dívida grega de março/abril de 2012 e uma estabilização até ao impasse negocial que agora se verifica e durante o qual saíram mais 24 mil milhões.

Durante todo este período, os depósitos caíram para cerca de 60% do seu valor no início de 2010. Esse valor mostra bem a dimensão da crise bancária grega, mas também as suas origens. Um primeiro movimento de fuga no contexto da recessão económica que o país enfrentou nos primeiros anos do ajustamento, uma recuperação baseada na esperança (ilusória) de que a reestruturação de 2012 fosse suficiente para devolver a dívida a uma trajetória de sustentabilidade e, mais recentemente, uma nova queda associada certamente à incerteza quanto ao desfecho das negociações entre governo grego e o Eurogrupo e quanto à própria permanência do país na moeda única. Em todo o caso, a fuga de depósitos é um expoente grave da crise bancária grega e, ao contrário da imagem que é frequentemente transmitida, é tudo menos recente.

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O Barco Pirata (Το Πειρατικό)

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Em 2004 a Grécia qualificou-se para o Euro por uma unha negra. Não acontecia há 24 anos. Nas apostas, disputava com a Letónia o último lugar com uma probabilidade de ganhar o campeonato estimada em 1 contra 150. A vitória contra Portugal (por 2-1), logo no jogo de abertura, deu à seleção helénica a alcunha de “barco pirata”. Passou aos quartos-de-final por um triz, eliminou a França, qualificou-se para a final derrotando a República Checa. E, numa circunstância inédita, a final do Euro de 2004 foi igual ao jogo de abertura… – o resultado também.

Confesso que percebo pouco de futebol e serve a estória apenas para dizer que não há canoa que não possa dar em barco pirata, se a força for suficiente e a vontade for grande. Força: segundo as últimas sondagens, o governo de Tsipras seria eleito com votação idêntica à de janeiro se as eleições fossem hoje, e Varoufakis continua a ser apoiado pela maioria da população. Vontade: a maioria dos gregos afirma querer uma solução de compromisso e recusa a saída do euro.

Duzentos milhões de euros esta sexta-feira e mais 750 milhões a 12 de maio, são os montantes devidos pela Grécia ao FMI nas próximas duas semanas. Em breve, também, irão vencer montantes devidos ao BCE. Acresce ao estrangulamento helénico, a decisão de Draghi, em Fevereiro, de deixar de aceitar dívida pública grega como garantia nos empréstimos a bancos.

É neste cenário que decorrem as negociações que permitiriam à Grécia aceder à última tranche do empréstimo da troika (7,2 mil milhões de euros). Em causa nas negociações não estão decisões que permitam à Grécia, ou sequer à zona Euro, recuperar o crescimento económico: já não devem faltar muitos nóbeis da economia a pronunciar-se sobre a insensatez da política económica da UE de 2010 a esta parte, bem como da razoabilidade das propostas do governo Grego. O que está em causa é uma demonstração de poder. É necessário remeter o único governo europeu eleito com um programa anti-austeridade ao seu papel de obediência, não vá mais alguém ter ideias.

Mas para o governo de Tsipras, é justamente a legitimidade democrática que está em causa. O governo grego já deixou claro que não implementará um programa que não levou a votos – e isso inclui tanto prosseguir a política de austeridade, como optar por uma saída da moeda única. Apesar de continuar a afirmar o seu otimismo no resultado das negociações, o primeiro-ministro Tsipras deixou claro numa entrevista recente que a prioridade do governo é pagar salários e pensões, não é pagar a credores.

Deixou claro, também, que na eventualidade das negociações falharem, será convocado um referendo. Ou seja, se o resultado das negociações inviabilizar o mandato do governo grego,  será com legitimidade eleitoral que a Grécia responderá. De canoa a barco pirata, se tiver que ser, em nome do respeito pela democracia. E não, desta vez o ato de pirataria não será uma derrota nossa.

A retoma ou o abismo?

Quem olhe para os dois gráficos que se seguem, facilmente se questionará sobre o que se está a passar.

P Gr emprego PGr Desemprego

À primeira vista e caso os olhos sejam portugueses e oficiais, dir-se-ia que a Grécia estava a retomar tão bem até ao 3º trimestre de 2014 que mal se compreende por que foi que a grande maioria do povo grego decidiu dar o seu voto, em Janeiro de 2015, a uma coligação da esquerda radical. Tal como em Portugal, o emprego na Grécia caiu abruptamente até 2013 e, a partir dessa altura, dava mostras de inverter a tendência. E, consequentemente e na mesma altura, o desemprego subiu a pique e inverteu a tendência.

“Portugal não é a Grécia”, dir-se-á. Aliás como se repetiu em 2010 e 2011 e como agora se repete, mais uma vez. Mas tudo indica haver uma similitude de tendências. Se Portugal está a recuperar – como afirma o Governo português e as “instituições” – então a Grécia também o deve estar e não se entende a atitude do Eurogrupo. Mas se a Grécia está como está, então Portugal também não estará assim tão bem. E, mais uma vez, não se entende a atitude do Europrupo.

Alguns argumentos possíveis: 1) os números podem não corresponder à realidade: após uma prolongada recessão, sobretudo na Grécia, os indicadores oficiais do emprego e desemprego podem não ser os que mais bem retratam a realidade. Já muito se escreveu sobre isso. O desemprego tende a ganhar outras facetas que os critérios oficiais (muito estritos) não acompanham; 2) a culpa é do Syriza que se deixou eleger com tanto apoio popular e acabou por criar anti-corpos no Eurogrupo e nas forças políticas que – actualmente – o  compõem. E quem sabe?, não estarão essas forças a tentar criar uma “vacina” para evitar que casos semelhantes surjam nos países periféricos da União Europeia; 3) poderá ainda verificar-se uma aproximação às eleições e um abrandamento na austeridade; 4) e há ainda o facto de o emprego e o desemprego não serem objectivos magnos dos programas de ajustamento, muito pelo contrário: o desemprego sempre serviu para rebaixar salários e rendimentos, entroncando na necessidade programada de baixar “custos do trabalho” para competitividade à economia. E pode estar a realidade a explodir que o Eurogrupo olhará para dashboard do défice orçamemtal…

Mas é inquietante a similitude. No próximo dia 6/5/2015, quando forem divulgadas as estimativas mensais de emprego, se verá como evolui o emprego e o desemprego.

Corpo, cabeça e cauda

Há trinta anos, quando Mário Soares assinou nos Jerónimos o tratado de adesão de Portugal à CEE, era habitual a imprensa nacional fazer comparações com a Grécia para tentar identificar qual dos dois Estados se situava, como então se dizia e repetia, «na cauda da Europa». O processo decorria como numa corrida de estafetas, pois a cada momento, de acordo com as circunstâncias e os indicadores escolhidos, um deles superava provisoriamente o outro.

A absurda competição – desconheço se entre os gregos ela teve também lugar – impunha, de acordo com um raciocínio viciado que ainda não desapareceu de todo, a depreciação sistemática dos números apresentados pelos nossos concorrentes, no sentido de mostrar que, se nos mantínhamos longe dos «países desenvolvidos», a verdade é que tínhamos iniciado um processo que conduziria mais cedo ou mais tarde a entrar no seu clube de elite. Deixando aos gregos a triste sina de se manterem afastados dessa dose certa de desenvolvimento e prosperidade que configuraria aquela que um dia Hegel considerou a etapa perfeita e terminal da História.

Vista a partir da leitura dos jornais da época e do que então diziam os telejornais, a empatia, a grega empátheia, era mínima. O modelo proposto supunha a competição, rumo a um Eldorado desenvolvimentista que excluía a solidariedade entre os países que se encontravam mais próximos no que respeitava à fragilidade da economia, ao limitado peso político nas instituições europeias e à subsistência de uma desigualdade social endémica.

Esta incompreensão configurou um handicap jamais ultrapassado, posteriormente reforçado por um conjunto de mitos, construídos no contexto de uma cultura popular influenciada pelos meios de comunicação, a propósito da capacidade grega para ludibriar a contabilidade, para viver de forma indolente ao sol da Ática e do Egeu, para nos diminuir as receitas turísticas e, por fim, num plano simbólico mas não menos amargo, para estragar as contas da camisola das quinas nas competições de futebol. Os desafortunados helenos eram-nos sistematicamente mostrados como estranhos, incompreensíveis, de certo modo pouco honestos e fiáveis. E acima de tudo como adversários no esforço para escapar à última carruagem do comboio europeu.

Não é por isso de estranhar o desinteresse com o qual, fora dos círculos políticos da esquerda, entre nós tem sido observada a dura experiência de recuperação e de reequilíbrio iniciada, com o apoio expresso da larga maioria dos gregos, pelo governo do Syriza. A ideia de que as tremendas dificuldades pelas quais este passa não nos dizem respeito, não são connosco, parece instalada, com a natural cumplicidade do atual governo, temeroso da contaminação e preocupado com a possibilidade do eventual sucesso grego confirmar a iniquidade das escolhas que fez e pelas quais será histórica e politicamente responsabilizado.

A busca de uma saída do beco para o qual fomos empurrados passa pois pela aceitação de que existe um destino partilhado pelos países mais afetados pela insolubilidade da dívida pública e de que a Grécia fica afinal aqui ao lado, partilhando connosco a certeza de que uma solução justa passa pela instalação da solidariedade internacional como princípio fundamental de política.

O escritor de policiais Petros Markaris, filho de um arménio e de uma grega, nascido em Istambul e morador em Atenas, um tradutor de Brecht e de Goethe que nem sequer votou no Syriza, afirma que aquilo que hoje se vive Grécia é uma crise europeia que impõe uma responsabilização europeia. Nessa medida, a ideia de que existe um fosso intransponível entre a cabeça loira que comanda e uma cauda morena que se arrasta deixou de uma vez por todas de fazer sentido. A Europa será um corpo inteiro e equilibrado ou não será Europa. A chave para a aplicação deste princípio só pode ser partilhada ou deitada fora.

Será a “irracionalidade” de Merkel assim tão irracional?

Merkel

Depois do acordo encontrado na reunião do Eurogrupo em fevereiro, a posição alemã em relação àquelas que deveriam ser as condições e objectivos a cumprir pelo governo Grego pareceu amenizar-se. As primeiras condições que foram postas em cima da mesa eram basicamente aquelas que já tinham sido acordadas com o governo anterior de Samaras – as condições a aplicar em troca de um terceiro resgate em Junho: corte nas pensões, mais privatizações, aumento de impostos para produtos de primeira necessidade e a continuação da liberalização do mercado de trabalho. No entanto, durante as negociações do Eurogrupo, o governo alemão pareceu suavizar as suas condições prévias e aceitar (pelo menos até Junho) condições – que embora não sejam perfeitas – são sem dúvida melhores para o governo grego.

No entanto, agora que Junho se aproxima perigosamente, Merkel decidiu mudar a sua atitude. Os quatro pilares já negociados com o governo Samaras serão, afinal, para cumprir, sem concessões. Sendo publicamente conhecido que o Estado Grego está perto da bancarrota; e sendo claro desde o início que a dívida grega é impagável e que as políticas de austeridade serviram apenas para o seu aumento, o Governo alemão está mais uma vez a colocar a Grécia entre a espada e a parede, ou seja, entre entrar em bancarrota ou aceitar a continuação das políticas de austeridade que têm vindo a destruir o país.

A arquitetura da Zona Euro favoreceu desde o início a economia alemã enquanto economia exportadora. Mas esta competitividade ganha através da desvalorização do Marco alemão em relação às outras moedas nacionais aquando da passagem à moeda única, foi sempre acompanhada por uma política económica interna de compressão salarial, políticas públicas de industrialização (aquilo que o governo de Merkel recusa aos países do sul da Europa) e o desenvolvimento de bancos especializados para o desenvolvimento económico do país; políticas estas que fizeram da Alemanha o país mais competitivo dentro da Zona Euro e que exporta produtos manufaturados para as periferias europeias (nomeadamente as do Sul). Neste sentido, a economia alemã foi a mais beneficiada pela união monetária – e este facto parece contradizer a atitude intransigente com a qual o governo alemão tem participado das negociações. Se Alemanha é o país mais beneficiado com a arquitetura atual da Zona Euro, porque é que Merkel e Schäuble têm mantido uma posição que pode precipitar a saída da Grécia do Euro e o colapso da Zona Euro como a conhecemos – e que tem sido em sua vantagem? Esta atitude parece quase “irracional”. Mas será mesmo?

O que pretendo argumentar é que não existe qualquer tipo de “irracionalidade” na forma como a Alemanha tem conduzido as negociações e que, aliás, esta posição intransigente é a única posição que permitirá salvar as elites políticas alemãs e provocar o colapso do único governo anti-austeritário eleito até hoje.

Desde o início da crise, a posição do Governo alemão tem sido a de defender as políticas de austeridade como as únicas possíveis para a recuperação económica. Esta posição significa “sacrifícios” para todos os povos da Europa – em particular os dos países intervencionados pela Troika – mas também para a classe trabalhadora alemã, que tem sido alvo de uma brutal desregulação do mercado de trabalho, da precarização das relações laborais, de compressão salarial e de perda de poder de consumo. O instrumento ideológico que tem sido vendido à classe trabalhadora alemã é o de que o projeto europeu colapsaria se “eles e elas” (a classe trabalhadora alemã) não pusesse em prática uma das ideias base do projeto europeu – a “solidariedade” – e portanto pagasse pela “nossa” (povos da periferia europeia) improdutividade e por termos gastos excessivos porque vivemos “acima das nossas possibilidades”. No entanto, o passar dos anos revelaram que as políticas austeritárias não resolvem o problema mas apenas o aumentam (um exemplo básico é o de que a dívida pública grega é hoje maior em relação ao PIB do que era antes da chegada da Troika). Quando o SYRIZA venceu as eleições a 25 de Janeiro, apareceu finalmente uma voz com legitimidade e soberania que pode questionar as instituições europeias por dentro e o processo de hiper-neoliberalização que a Europa tem vivido. No entanto, aceitar as exigências do governo SYRIZA significa aceitar, na prática, que a austeridade falhou e que a agenda política e económica dominada pela Alemanha nos últimos anos serviu apenas o sistema bancário e as elites políticas e económicas. Mais ainda, significaria ter que assumir publicamente que os sacríficos impostos à classe trabalhadora alemã pelo seu governo foram em vão e que aconteceram apenas para re-balançar a relação entre capital e trabalho, em prol do capital.

Neste sentido, uma posição de intransigência por parte do governo alemão é a única estratégia para a sua sobrevivência política – Merkel não quer ser corrida para os vãos da história, tal como aconteceu com o PASOK na Grécia, como começa a acontecer com o PSOE em Espanha e como talvez venha a acontecer com o PS em França. Neste sentido, o meu argumento é o de que a Alemanha está disposta a deixar a Zona Euro colapsar, se essa for a única forma de garantir a sua sobrevivência política (é importante não esquecer que já há, na Alemanha, debates sobre a criação de um Euro exclusivamente para a Europa central e do norte; e que a Alemanha já tem vindo a reencaminhar os seus produtos para outros mercados de exportação como a China). E não há nada de “irracional” nesta linha de pensamento e estratégia, nem na forma como a Alemanha tem jogado o “jogo da culpa” (“the blame game”): se forçarem o Estado Grego à bancarrota e isto criar um efeito dominó desestabilizador da economia europeia por um certo período de tempo, a culpa será facilmente atribuída a um governo grego que não quis jogar pelas regras do jogo e se recusou a aceitar um compromisso “sensato”.

 Ao nível do xadrez da política europeia, esta posição intransigente é também aquela que pode parar um outro efeito dominó – o da multiplicação de governos de esquerda anti-austeritários. Num momento de polarização politica na Europa entre a esquerda radical e a direita radical, em que partidos no espectro político mais distante têm ganho em apoio e simpatia, muito pela recusa da austeridade enquanto política económica e social, dar nem que seja um passo atrás na narrativa de que a “austeridade é a única solução” poderá certamente abrir espaço político a esta polarização. Com o exemplo do SYRIZA à cabeça, isto significa abrir espaço político à esquerda por essa Europa fora.

Mas há ainda um terceiro nível que explica esta posição intransigente de Merkel: as elites europeias sabem que a possibilidade da bancarrota e de um partido de esquerda ser incapaz de cumprir as suas promessas eleitorais (sobretudo num país politicamente tão polarizado como a Grécia), será aquilo que mais facilmente deitará este governo abaixo. Forçar a Grécia a aceitar os pilares do 3o memorando para não criar um possível colapso económico, criará descontentamento e oposição na sociedade grega que votou contra a austeridade, bem como no interior do governo e do partido. Neste sentido, a táctica alemã é a de destruir a esquerda grega “por dentro”.

Com o mês de Junho a aproxima-se a uma velocidade vertiginosa, é importante relembrar, repetir e sublinhar que apenas o apoio da população grega (e de todos os povos seus aliados) pode continuar a dar força a um governo de esquerda para que este possa cumprir o seu programa e resgatar o país das garras da Troika e da crise humanitária. Qualquer que seja o plano A, B ou C, esse plano terá que ser aquele que respeita a vontade e a soberania popular e que responde às exigências por democracia, dignidade e justiça – os três pilares da campanha eleitoral do SYRIZA. Pelo futuro do povo grego. E pelo nosso.

Porque é que deve a Grécia?

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Para responder a esta questão central foi criada a Comissão de Auditoria à Dívida Pública Grega. A ação do Parlamento Grego contou no lançamento com o Presidente da República e o Primeiro-Ministro Tsipras. A presença destes membros dá o devido peso a uma iniciativa inédita em toda a União Europeia.

Esta semana entrevistei para a Antena 1 a brasileira Maria Lucia Fattorelli (a partir dos 27m10), que integra a comissão. Fattorelli garante que a análise detalhada do endividamento helénico pode levar à revisão do pagamento da dívida, caso sejam detetados problemas.

A auditoria pode iluminar algumas contas obscuras, nomeadamente as grandes derrapagens nas contas dos Jogos Olímpicos de Atenas 2004 (Counterpunch ou Reuters), os maiores gastos militares em toda a Europa em % do PIB (excelente relatório do TNI), os swaps do Goldman Sachs (explicados pela BBC) ou as luvas da alemã Siemens (nas palavras do alemão Deutsche Welle).

Obviamente que estes casos representam apenas parte da dívida. No entanto, simbolizam as anomalias políticas e económicas na base da catástrofe grega (nós também temos os estádios e submarinos, entre outros casos). Fica a pergunta: será que os cidadãos devem pagar estas contas? Esta ferramenta pode, por isso mesmo, ser preciosa para o Executivo grego, numa altura em que toda a ajuda lhe será bem-vinda. O primeiro relatório da comissão chega em Junho… resta saber se o Governo grego aguenta mais dois meses sem financiamento (o Zé detalha aqui na ‘casa’ o calendário financeiro do país).

Nota final: É a primeira vez que um Governo Europeu lança uma iniciativa deste género, apesar de ser obrigatório para todos sob resgate, segundo uma diretiva do Parlamento Europeu e o Conselho da UE (ver nº9 do artº7). Em Portugal esta tarefa hercúlea tem ficado a cargo dos ativistas da IAC.

eímaste íberoi ki emeís, somos tod@s greg@s

a 27 de Abril de 2010, após o almoço, comecei a receber sms alarmantes, já tinha sido a Grécia e Portugal, ‘agora’ eram os juros de Espanha, o risco da dívida a subir e a atingir novos máximos.

a meio da tarde percebi que o alarme era substituído pelo medo, mas estava descontraído: se fosse um problema da Grécia e de Portugal não seria um problema da Europa, com Espanha mudaria de figura, e a Europa seria ‘solidária’ para resolver os problemas dos ‘mercados’.

estava enganado: a ‘Europa’ esqueceu-se de Schuman, “A Europa não se fará de uma só vez, nem de acordo com um plano único. Far-se-á através de realizações concretas que criarão, antes de mais, uma solidariedade de facto.”, nós não somos gregos nem cipriotas, como não somos magrebinos e parece que pouco mediterrânicos, somos alunos bem comportados e por isso passámos em todos os exames, não vamos perder o pelotão da frente, a austeridade será redentora, o paraíso é possível nesta terra…

como acho que somos tod@s greg@s, eímaste íberoi ki emeís (José Saramago, A Jangada de Pedra, pág. 163), espero trazer nas próximas notas, menos intimistas e mais factuais, uma imagem da Grécia e do povo grego que nos torne mais solidários, mais e melhores europeus, em especial em matérias laborais e de protecção social

Jangada